
Via-se na qualidade dos frescos nas paredes das casas ou na proliferaçao de quadros impressionistas junto às estradas, já que dá mesma maneira que o McDonald’s usa o amarelo para transmitir a sensaçao de fome, os estudiosos do marketing político resolveram confiar na propaganda pictórica para convencer o eleitorado que, no caso do Peru, é obrigado a votar. Entao, para simplificar o trabalho, dos políticos entenda-se, é designado a cada partido um bonequinho que dê votos. Alguns apelam ao patriotismo dos símbolos nacionais, como o lama, a planta de quinua ou até o mapa do Peru. Também há referencias à cultura andina: a tuna ou o chapéu. Outros tentam aceder ao eleitor campesino, usando símbolos como o trigo ou a árvore. Há quem aposte num design que transmita a ideia de trabalho e competência, como o lápiz ou o carrinho de mao.
Mas nao havia dúvida de quem estava em vantagem eleitoral na regiao de Ayacucho. Nao era preciso sondagens. A escolha do símbolo foi de uma perspicacia de dar pele de galinha a publicitários. Era óbvio que ia ganhar a bola de futebol. Além de ser um pujante símbolo de uma eficácia demolidora de consciências, a bola estava pintada por todo o lado que era possível. Numa mistura extraordinaria de gás, bolas de futebol e política, o candidato a presidente regional Rofilio Neyra, presidente do clube de futebol Inti Gas Deportes Ayacucho, avisa que “CON LA PELOTA…. TODO AYACUCHO SERA GANADOR.”


Em vésperas de eleiçoes os terminais de autocarros estavam a abarrotar de passageiros. Já em viagem, e depois de ser filmado por breves segundos pelo segurança da companhia rodoviaria, perguntei à senhora do lado:
“Está a viajar para votar?”
“Nao. Fui ver o meu marido a Trujillo, está internado no hospital.”
“Que passou?”
“Teve um acidente de mototaxi… vai ficar sem uma vista.”
“E como vai fazer para votar?”
“Pois, o medico ainda nao me deu o atestado para provar que nao pode ir votar. Se nao tenho de pagar a multa.”
Outra senhora meteu-se na conversa:
“Ah, eu nao vou votar. Sai-me mais caro ir votar que pagar a multa. Se nao votar pago a multa, que sao 80 soles. Mas como eu ainda estou registada em Arequipa, onde nasci, tenho de gastar mais de 100 soles para ir la votar e voltar. Nao vou gastar tanto só para votar...“
Desta obrigaçao de voto e da consequente lei seca concluia-se que a industria de bebidas nao gosta muito de eleicoes mas a indústria dos transportes privados lhe faz um brinde.
Nao houve uma pessoa que me tivesse respondido o partido em que ia votar. Todos me respondiam que “ainda nao sabiam” ou que “sao todos maus”.

Em Lima, a eleiçao era histórica. Era a primeira vez que os dois principais candidatos eram mulheres, o que significava que pela primeira vez seria eleita uma senhora alcalde na capital peruana. A candidata de esquerda, Susana Villarán, foi apanhada num vídeo a chamar “cadela” à opositora. Esta, Lourdes Flores, disse numa entrevista antes das eleiçoes que a autarquia de Lima “a podiam meter pelo recto, que nao lhe interessava para nada.”
No dia 3 de outubro de 2010 o Peru foi a votos. Vinte dias depois ainda estavam a contar os votos da capital e ainda nao havia vencedor oficial.
Curiosa esta simbologia de apelo ao voto ( bola, árvore,chapéu, espiga, lápis... ). Sendo certo que estimula a arte da pintura, não contribui para o decréscimo do analfabetismo.
ReplyDeleteSe o estilo pega em Portugal, teremos a imaginação confinada a águias, leões e dragões...
Aquele abraço