despair is the armchair
o desespero é o sofá
29.4.11
Coisas da vida 9
25.4.11
CSI Cajamarca
A consciência queria que resolvesse o assunto para evitar insónias. Era dia de eleições no Perú, dia em que os que precisam de estar ébrios para viver estavam obrigados a estar sóbrios para votar. Nas ruas em volta do mercado de Cajamarca, enquanto senhoras com o típico chapéu cajamarquino vendiam queijos com sabor a serra portuguesa, um velhote emborcava a lei seca pelo gargalo da garrafa da água ardente da alma.
Sabia que a esquadra era perto do famoso “quarto do resgate”, onde se reconstituí a prisão do último inca Atahualpa. Este pediu que lhe poupassem a vida se enchesse um quarto de ouro “até onde lhe chegasse a mão”. Mas assim que o ouro lhe chegou à mão, os espanhóis chegaram-lhe ao pescoço. A morte de Atahualpa foi o fim do império inca. Estava ainda no início deste episódio e quando perguntava onde era a polícia a face das pessoas reagia com uma curiosidade televisiva.
Dois guardas à entrada da esquadra. Uma “señorita” e um gorducho ao telemóvel. Perguntei à policinha: “Para apresentar uma queixa, com quem devo falar?” “Sobre quê?” Disse-lhe que queria falar apenas uma vez. Estava a dar-me conta da sua beleza fardada quando ouvi “É comigo, é comigo que fala, siga-me”. O gorducho afinal era o Comandante Carranza. Acompanhei-o ao seu escritório, perante os olhares curiosos dos oficiais à conversa no átrio. Sentámo-nos nos sofás. Reparei nos dois posters pendurados na parede com imagens de surfistas. Passei-lhe o meu passaporte. Folheou-o várias vezes com atenção. “Japão?”, perguntou. Contei-lhe.
“Conhece um William Cabrera?”, perguntei.
“William?…”
“Cabrera.”
“Cabrera. Não, não conheço. Porquê?”
Disse-lhe que não estava ali para lhe pedir nada, simplesmente para tranquilizar a consciência com o que lhe ia contar...
Fui à internet numa das esquinas da praça de armas dar umas skypadas dominicais com os amigos do mundo. As crianças que substituíam a dona do ponto internet deliravam com o bob esponja na televisão. Os computadores abanavam com as correrias. O volume animado sobrepunha-se às histórias da Juliana na Índia. Saí. Dei uma volta à procura de outra internet. Os lugares que estavam abertos tinham todos os computadores ocupados de humanos.
Voltei ao mesmo local. Já tinham enxugado o bob esponja. Troquei de computador. Quando pus o cursor na barra de pesquisa google, apareceu a lista automática com as pesquisas recentes e vi que alguém tinha acabado de fazer uma pesquisa que me indignou. Chamei a dona do local internet. Não ficou surpreendida com o que leu. “Há muita gente assim. E os piores são os mais bem vestidos.”
O Comandante Carranza estava cada vez mais intrigado com o que ouvia. Expliquei-lhe da maneira mais simples que pude que encontrei através do historial do browser que a pessoa que fez essa pesquisa revoltante foi a mesma que usou uma conta do site hi5 para ver os perfis e fotografias de raparigas menores de idade.
“Que mais informação conseguiu?”
Começou a escrever numa folha a ocorrência: William Cabrera; 34 anos; nascido a 22/2; no dia 3 de outubro, antes das 17h da tarde, pesquisou no google “sexo com a minha filha enquanto dorme”. Pensativo, disse: “Pela pesquisa que ele fez já está a pensar em alguma coisa… Cabrera não é um apelido comum, e pode ser que se consiga a morada com os dados que me deu. O que fazemos nestas situações é enviar os dados para Lima e eles têm lá um departamento específico para estes casos. É o que posso fazer”.
Era o que se podia fazer. Talvez seja apenas um nome fictício, não exista ninguém com esse nome e não haja maneira de encontrar quem fez essa pesquisa e saber como trata a sua filha.
“Tenho um amigo que também faz essas coisas da fotografia. Voçê gosta de surf? Foi ele que me ofereceu estes posters.” O comandante Carranza agradeceu-me mas fiz que questão de agradecer por cima. Atirei para ele a batata quente da sesta da alma. Podia partir de Cajamarca no dia seguinte com a consciência mais leve que a mochila.
13.12.10
6.12.10
O céu de Lima é cinzento para todos
E. despedia-se de mim com um Tchau! tao ríspido que era como se eu fosse um empregado seu que lhe tivesse acabado de lhe quebrar uma jarra valiosa. Convidou-me para ficar em sua casa em Lima nao sei muito bem porquê. Por simpatia. Ou porque podia. Apresentava-me aos amigos como o amigo de Portugal. Vegetariana, a sua dieta baseava-se em chocolates, bolachas com chocolate, batatas fritas, doces, caramelos de chocolate, café com duas três quatro colheres de açúcar amarelo e depois queixava-se que estava inchada. Tinha o comum almofadado de gordura à volta da cintura mas ainda assim os homens pasmavam-lhe as curvas e as mulheres os caracois.
Estava a abrir a porta da sua casa num dos bairros mais luxuosos de Lima, quando me disse “Tenho uma vida muito complicada, Tiago”. Dei-lhe uma estalada com o olhar. Com 19 anos tinha acabado de assinar a burocracia que dizia que ela era a proprietaria do apartamento T3. Com ela viviam dois primos, deprimidos. O primo gay, deprimido por excesso de trabalho, a prima por ter acabado uma relaçao amorosa. Ela tambem estava a faltar as aulas na universidade privada mas nao sabia bem porquê. Estavam os três a degustar uns churros gourmet num restaurante em que a gorjeta que deixavam daria para alimentar uma familia inteira, e a discutir quem é que tinha mais razoes para estar deprimido. E. disse: “A minha mae vem na quarta-feira dos EUA. (suspiro) Vou ser milionária outra vez.” Disse-o como se isso fosse fonte de aborrecimento. O tédio de nascer com miminhos de filigrana.
Vi mais casinos em quatro ou cinco quarteiroes do bairro limenho de Miraflores que todos os restantes que tinha visto na america do sul. Os empresarios da elegancia, sentados nas esplanadas, apreciavam o ritmo passageiro de sofisticados saltos altos que irrompiam o silêncio formal. O céu, cinzento como sempre. Lima é uma cidade onde quase chove nove meses por ano. A bruma é constante, nao tanto em Miraflores, onde as luzes, Pizza Hut, Burguer King, Starbucks, e todas essas iluminaçoes ofuscam o olhar como em qualquer outra cidade do mundo. Mas mesmo sob aquele salpilhar de cores a névoa densa dos céus nao escolhia ricos e pobres.
Fora do bairro de Miraflores, do outro lado da cidade, era outro país. O caos, a poluiçao sonora, suficientemente explosiva para chamar o otorrino. A miséria. Sentia-se nos olhares, no corropio de mercadorias carregadas às costas no bairro chinês. O lixo era comida perdida, que alimentava o asfalto sujo. O céu cinzento era escurecido pelos fumos saídos dos escapes dos automóveis parados no trânsito, nuvens fantasmagóricas que apareciam e desapareciam no ar. Havia tantos autocarros que era difícil saber qual ia de volta a Miraflores. Antes de ter tempo para perguntar a alguém, um rapaz vestido com os restos de uma t-shirt que já nao era branca, que ganhava uns trocos ajudando as pessoas a subir aos autocarros, começou a chamar-me, aos gritos, com uma urgência de salva-vidas, apontava para o autocarro, apontava para mim, apontava para o autocarro e gritava para mim em berros roucos “MIRAFLORES, MIRAFLORES! TU, TU, MIRAFLORES!” Adivinhou-me o destino. Continuou a gritar: “MIRAFLORES, AQUI! FLOWERS FLOWERS AQUI ENTRA ENTRA!”
Agradeci e entrei a rir-me no autocarro. A viagem no trânsito parado de hora de ponta demorou mais do que se fosse caminhando. O céu continuava nem claro nem escuro, apenas e mais uma vez imperialmente cinzento. Mas viajar do centro de Lima para o bairro de Miraflores foi como viajar do negro para o branco, da ausência de cor para a soma de todas as cores. E em nenhuma capital sul-americana tinha eu visto o negro tão negro e o branco tão branco.
3.12.10
Quem não vota paga multa

Via-se na qualidade dos frescos nas paredes das casas ou na proliferaçao de quadros impressionistas junto às estradas, já que dá mesma maneira que o McDonald’s usa o amarelo para transmitir a sensaçao de fome, os estudiosos do marketing político resolveram confiar na propaganda pictórica para convencer o eleitorado que, no caso do Peru, é obrigado a votar. Entao, para simplificar o trabalho, dos políticos entenda-se, é designado a cada partido um bonequinho que dê votos. Alguns apelam ao patriotismo dos símbolos nacionais, como o lama, a planta de quinua ou até o mapa do Peru. Também há referencias à cultura andina: a tuna ou o chapéu. Outros tentam aceder ao eleitor campesino, usando símbolos como o trigo ou a árvore. Há quem aposte num design que transmita a ideia de trabalho e competência, como o lápiz ou o carrinho de mao.
Mas nao havia dúvida de quem estava em vantagem eleitoral na regiao de Ayacucho. Nao era preciso sondagens. A escolha do símbolo foi de uma perspicacia de dar pele de galinha a publicitários. Era óbvio que ia ganhar a bola de futebol. Além de ser um pujante símbolo de uma eficácia demolidora de consciências, a bola estava pintada por todo o lado que era possível. Numa mistura extraordinaria de gás, bolas de futebol e política, o candidato a presidente regional Rofilio Neyra, presidente do clube de futebol Inti Gas Deportes Ayacucho, avisa que “CON LA PELOTA…. TODO AYACUCHO SERA GANADOR.”


Em vésperas de eleiçoes os terminais de autocarros estavam a abarrotar de passageiros. Já em viagem, e depois de ser filmado por breves segundos pelo segurança da companhia rodoviaria, perguntei à senhora do lado:
“Está a viajar para votar?”
“Nao. Fui ver o meu marido a Trujillo, está internado no hospital.”
“Que passou?”
“Teve um acidente de mototaxi… vai ficar sem uma vista.”
“E como vai fazer para votar?”
“Pois, o medico ainda nao me deu o atestado para provar que nao pode ir votar. Se nao tenho de pagar a multa.”
Outra senhora meteu-se na conversa:
“Ah, eu nao vou votar. Sai-me mais caro ir votar que pagar a multa. Se nao votar pago a multa, que sao 80 soles. Mas como eu ainda estou registada em Arequipa, onde nasci, tenho de gastar mais de 100 soles para ir la votar e voltar. Nao vou gastar tanto só para votar...“
Desta obrigaçao de voto e da consequente lei seca concluia-se que a industria de bebidas nao gosta muito de eleicoes mas a indústria dos transportes privados lhe faz um brinde.
Nao houve uma pessoa que me tivesse respondido o partido em que ia votar. Todos me respondiam que “ainda nao sabiam” ou que “sao todos maus”.

Em Lima, a eleiçao era histórica. Era a primeira vez que os dois principais candidatos eram mulheres, o que significava que pela primeira vez seria eleita uma senhora alcalde na capital peruana. A candidata de esquerda, Susana Villarán, foi apanhada num vídeo a chamar “cadela” à opositora. Esta, Lourdes Flores, disse numa entrevista antes das eleiçoes que a autarquia de Lima “a podiam meter pelo recto, que nao lhe interessava para nada.”
No dia 3 de outubro de 2010 o Peru foi a votos. Vinte dias depois ainda estavam a contar os votos da capital e ainda nao havia vencedor oficial.
Ayacucho - Huancayo
“Bom dia Lourdes.” Olhou-me com atenção redobrada. Perguntei-lhe quanto custava o bilhete para Huancayo.
“Lourdes, e sabe de que lado fica o abismo?”
“De que lado é o abismo?“
“Sim, a estrada até Huancayo não segue o rio? De que lado é o rio?"
”Acho que é… é do lado esquerdo”, disse a franzir a face.
Pedi-lhe que me desse um lugar à janela, do lado esquerdo. A cara franziu-se-lhe ainda mais.
“Se vou morrer, quero ver como é”, disse-lhe.
Piscou os olhos três vezes, até perceber que era uma piada.
“Nome?”
Respondi.
“Apelido?”
Respondi.
Levantou a cabeça, e piscou outra vez os olhos.
“Espirito Santo?”
“Isso mesmo.”
Virou-se para a colega e disse: “Este chama-se Espirito Santo diz”, usando o verbo no final da frase, típico do espanhol andino.
“Deixe-me ver o seu passaporte.”
“Deixo-lhe ver o que quiser, Lourdes”. Não conseguiu conter o riso, folheou o passaporte e devolveu-mo escondendo a cara. Imprimiu o bilhete, em que estavam escritos tanto o meu nome como o dela. Quando fui pôr a mochila no autocarro, o encarregado das bagagens perguntou-me se era só isso e escreveu nas costas do bilhete: “1 muchela”. Espero nunca perder esta reliquia das recordaçoes de viagem.
E lá estava o abismo e o roçe das rodas do autocarro. Trinta centímetros de engano do condutor e salve-se quem puder. Se vamos morrer, pelo menos vemos como é, repeti a piadinha para um casal no autocarro. Até que funcionava. Com uns poucos. Algumas pessoas continuavam a suspirar a cada curva. Era como estar num avião, a indagar se seria esta a ultima viagem. E a pensar na estupidez dos acidente de viação, e no pavor de morrer assim. Durante esse percurso escrevi - vivo num mundo em que há leis que limitam a velocidade aos meios de transporte e ao mesmo tempo permitem a construção e a venda de ferraris.
Às vezes parávamos e o condutor fazia marcha-atrás, porque era impossivel dois veiculos cruzarem-se, não havia espaço suficiente. Para me alegrar e esquecer-me dos suspiros das curvas, lembrei-me do filme O Regresso ao Futuro em que o cientista dizia: “Roads? Where we are going we don't need roads!”
O autocarro deixava para trás uma nuvem de poeira e as pessoas que viviam sob aquele ar seco tentavam abrigar-se junto das margens secas do rio seco. É uma das vantagens de viajar de autocarro em vez de avião. Voando não vemos nada; no autocarro damo-nos conta de que há pessoas que vivem no meio do nada. E sorriem e dizem adeus.



Quando cheguei a Huancayo percebi que a cidade não esta habituada a turistas. Fiquei sem saber como me sentir, se como uma celebridade hollywoodesca ou como um freak circense. Os mais pequenos olhavam-me com olhares de estranheza, alguns homens riam-se e diziam aos amigos para olharem tambem e depois riam-se juntos, grupos de raparigas paravam de falar quando passava por elas e depois de ter passado podia ouvir as gargalhadas, ninguém sabia a diferença entre uma agência de viagem e um posto de turismo, o posto de turismo estava mesmo no meio de um desfile de camioes com pessoas a bater palmas e polícias a mostrar os uniformes, a praça principal da cidade está ao lado de uma estrada de duas vias em cada sentido e as pessoas comunicam por buzinas como nunca tinha visto em lugar algum. Aquele pi, piiiii, pi pii piiiiiiiiii, usado com diferentes ritmos e intervalos podia descodificar-se em:
Despacha-te
Sai da frente carajo
Taxi? Quer taxi? Taxi?
Oh boazona olha p’ra aqui
Cuidado que eu estou a chegar ao cruzamento
És mesmo boa
Taxi? Taxi? Taxi?
Sou eu, sou eu, agora sou eu
Eu tenho um carro estou possuído e gosto de fazer barulho
Às vezes o importante não é onde se vai, é como se lá chega.
E quando se parte para outras paragens.
Coisas da vida 8
"El baño es solamente para número 1. Esta expresamente prohibido hacer el número 2, sin excepción."
Pikimachay: 20.000 anos depois
Desde Pikimachay avista-se como a passagem do tempo desde o primitivo transformou a paisagem. As montanhas estao feitas retalhos, com recortes de asfalto que encaminham o sopro mecânico dos automóveis como feridas abertas que parecem levar-nos sempre ao mesmo sítio. Um camião passa e anuncia promessas eleitorais no altifaltante. Às duas horas, vislumbram-se os telhados de zinco que protegem as ruínas da cidade pré-inca da civilizaçao Huari, quase soterradas pelos cactos invasores.
Ao longe, num anfiteatro natural, vê-se a estátua comemorativa da Batalha de Ayacucho de 1824, que libertou finalmente a america do sul dos espanhois (ou os espanhois da america do sul, como preferir).
Perto da vila de Huanta, um barbudo pintado de branco, de braços abertos, parece querer abraçar o ar para pedir perdão de estragar a paisagem natural.
Choramingam as ovelhas e zunem enchames inimaginaveis de gafanhotos.
Uma velhota passou rapidamente pelo silêncio comunicando com as cabras. Deve ter receio da grande pulga caucasiana, pois continuou indiferente o seu caminho pela secura da estepe. As pulgas sobreviveram a todos os gigantescos bichos cujas ossadas foram descobertas na gruta Pikimachay: mastodontes, megatérios, tigres dentes-de-sabre, homo sapiens. E quando o corpo daquela senhora se cansar de viver, as pulgas continuarão por aqui.


26.11.10
Coisas da vida 7
Papel afixado na porta da hospedagem. "POR FAVOR NO DEJAR COSAS DE VALOR EN LOS CUARTOS, NI DEBAJO DEL COLCHÓN, LA GERENCIA NO SE HACE RESPONSABLE"
"Viajar assim é viagem" - Turismo de guerrilla
Turistas são os outros. É o que sinto quando vejo a massificação de experiências subjugada à industrialização das viagens. Sinto uma tristeza agressiva de ser apenas mais um explorador de um mundo contaminado pela exploração excessiva.
Deste sentimento nasceu a ideia de "turismo de guerrilha", conceito que, especulo, deverá ser invenção própria. Nasce da paixão pela aventura da autonomia e da crença no ditado “Em roma sê romano – excepto se fores o papa”. Nasce do coração do viajante que nasceu tarde, quando os tentáculos da indústria do turismo já cobriam os mapas e o mundo ja não necessitava de corações com máquinas fotográficas.
O turista da guerrilha evita sempre que possível contribuir para a indústria do turismo. Essa é a sua missão.
O turista de guerrilha é anti-agências de viagem.
As agências de viagem estão para o turismo como as igrejas estão para as religiões. São dispensáveis. Existem pela fraqueza de espírito de quem não suporta viver dentro do seu próprio altar. Os agentes de turismo são sanguessugas que quando te criam problemas tu não os podes resolver. As agências de viagem gostam de criar-te problemas.
O turista de guerrilha vê mapas, não vê brochuras.
Os packages holidays são inimigos. O turista de guerrilha não faz o Sudeste Asiatico, não faz o Chile nem o Brasil. Foi ao Chile e ao Brasil. Vai ao Sudeste Asiatico. Ir é o verbo mais importante.
O turista de guerrilha é anti-tours.
O turista de guerrilha é autónomo e procura a experiência da autenticidade. Os tours são inimigos. O turista de guerrilha deixa de o ser se ouvir a frase “agora tem quinze minutos para a fotografia”.
Um guia ensina-te o que vem nos livros e outras mentiras. O guia não trabalha para ti, trabalha para a agência, e faz com que tu não trabalhes para ti mesmo. O guia, ao pastorear-te, ao mastigar-te a papinha, torna-se uma influência perniciosa sobre a tua incursão na douta ciência da desenmerdagem.
O turista de guerrilha não aceita preços em dólares quando está num país cuja moeda não é o dólar.
O turista de guerrilha é anti-city sightseeing.
O turista de guerrilha não dá voltas a cidades em autocarros sem tecto para “ficar com uma ideia”.
O turista de guerrilha caminha. Tem um espírito jovem.
Quando o turista de guerrilha tiver artroses e não puder caminhar não dá voltas a cidades em autocarros sem tecto para “ficar com uma ideia”; senta-se num café ou num banco de jardim e faz perguntas às pessoas que ali vivem.
O turista de guerrilha não viaja para “ficar com uma ideia”.
Quando o turista de guerrilha quiser “ficar com uma ideia”, fica em casa a ver um filme sobre esse destino.
O turista de guerrilha prefere alimentar o plâncton que engordar os tubarões.
O turista de guerrilha practica turismo sustentável.
O turista de guerrilha entra em lugares turísticos sem pagar bilhete. Turismo irresponsável são os copos de plástico de café atirados desde a janela da carruagem de 1a clase do comboio para o Machu Picchu.
Para o turista de guerrilha o mundo é uma ervilha.
Uma ervilha podre que todos anseiam por trincar. O turista de guerrilha ama a podridão da ervilha.
O turista de guerrilha não tem ilusões: aceita a sua própria condição de turista.
O turista de guerrilha é turista de si próprio.
Série "Viajar assim é viagem"
O próximo post é o primeiro de um conjunto de textos sobre o que é isto da viagem, o que deveria ser e nao é, e outras análises altamente imprescindíveis para o futuro da espécie humana. “Viajar assim é viagem” é um verso de um pequeno grande poema de, adivinharam, Fernando Pessoa.
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa, 20-9-1933
25.11.10
Coisas da vida 6
Na rádio: são as 4 da tarde com 19 minutos, são as 4 da tarde com 19 minutos, esta é a radio provincial. São as 4 da tarde com 19 minutos.





