3.12.10

Ayacucho - Huancayo

Li-lhe a plaquinha junto ao seu seio esquerdo: “Lourdes”.
“Bom dia Lourdes.” Olhou-me com atenção redobrada. Perguntei-lhe quanto custava o bilhete para Huancayo.
“Lourdes, e sabe de que lado fica o abismo?”
“De que lado é o abismo?“

“Sim, a estrada até Huancayo não segue o rio? De que lado é o rio?"
”Acho que é… é do lado esquerdo”, disse a franzir a face.
Pedi-lhe que me desse um lugar à janela, do lado esquerdo. A cara franziu-se-lhe ainda mais.
“Se vou morrer, quero ver como é”, disse-lhe.
Piscou os olhos três vezes, até perceber que era uma piada.
“Nome?”
Respondi.
“Apelido?”
Respondi.
Levantou a cabeça, e piscou outra vez os olhos.
“Espirito Santo?”
“Isso mesmo.”
Virou-se para a colega e disse: “Este chama-se Espirito Santo diz”, usando o verbo no final da frase, típico do espanhol andino.
“Deixe-me ver o seu passaporte.”
“Deixo-lhe ver o que quiser, Lourdes”. Não conseguiu conter o riso, folheou o passaporte e devolveu-mo escondendo a cara. Imprimiu o bilhete, em que estavam escritos tanto o meu nome como o dela. Quando fui pôr a mochila no autocarro, o encarregado das bagagens perguntou-me se era só isso e esc
reveu nas costas do bilhete: “1 muchela”. Espero nunca perder esta reliquia das recordaçoes de viagem.

E lá estava o abismo e o roçe das rodas do autocarro. Trinta centímetros de engano do condutor e salve-se quem puder. Se vamos morrer, pelo menos vemos como é, repeti a piadinha para um casal no autocarro. Até que funcionava. Com uns poucos. Algumas pessoas continuavam a suspirar a cada curva. Era como estar num avião, a indagar se seria esta a ultima viagem. E a pensar na estupidez dos acidente de viação, e no pavor de morrer assim. Durante esse percurso escrevi - vivo num mundo em que há leis que limitam a velocidade aos meios de transporte e ao mesmo tempo permitem a construção e a venda de ferraris.


Às vezes parávamos e o condutor fazia marcha-atrás, porque era impossivel dois veiculos cruzarem-se, não havia espaço suficiente. Para me alegrar e esquecer-me dos suspiros das curvas, lembrei-me do filme O Regresso ao Futuro em que o cientista dizia: “Roads? Where we are going we don't need roads!”
O autocarro deixava para trás uma nuvem de poeira e as pessoas que viviam sob aquele ar seco tentavam abrigar-se junto das margens secas do rio seco. É uma das vantagens de viajar de autocarro em vez de avião. Voando não vemos nada; no autocarro damo-nos conta de que há pessoas que vivem no meio do nada. E sorriem e dizem adeus.





Quando cheguei a Huancayo percebi que a cidade não esta habituada a turistas. Fiquei sem saber como me sentir, se como uma celebridade hollywoodesca ou como um freak circense. Os mais pequenos olhavam-me com olhares de estranheza, alguns homens riam-se e diziam aos amigos para olharem tambem e depois riam-se juntos, grupos de raparigas paravam de falar quando passava por elas e depois de ter passado podia ouvir as gargalhadas, ninguém sabia a diferença entre uma agência de viagem e um posto de turismo, o posto de turismo estava mesmo no meio de um desfile de camioes com pessoas a bater palmas e polícias a mostrar os uniformes, a praça principal da cidade está ao lado de uma estrada de duas vias em cada sentido e as pessoas comunicam por buzinas como nunca tinha visto em lugar algum. Aquele pi, piiiii, pi pii piiiiiiiiii, usado com diferentes ritmos e intervalos podia descodificar-se em:
Despacha-te
Sai da frente carajo
Taxi? Quer taxi? Taxi?
Oh boazona olha p’ra aqui
Cuidado que eu estou a chegar ao cruzamento
És mesmo boa
Taxi? Taxi? Taxi?
Sou eu, sou eu, agora sou eu
Eu tenho um carro estou possuído e gosto de fazer barulho


Às vezes o importante não é onde se vai, é como se lá chega.
E quando se parte para outras paragens.

3 comments:

  1. grande tiagão, gosto em ouvir as tuas histórias... espero que esteja tudo bem contigo (pelo me nos parece... :))
    abração!!!
    zezito

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  2. mto bom tiagao!! continua, um prazer ler as tuas histórias! espero que esteja tudo bem (pelo menos parece, sorriso de soslaio:))
    zezito

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  3. Não te esqueças do morse da busina para: Oh, boazona olha p'ra aqui!
    Será que é código universal?
    Aquele abraço

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