Terminal de autocarros de Valparaíso, Chile.
Uma jovem avó tem o neto sentado ao colo. Para o entreter, decidiu usar a língua. Pôs a língua de fora e começou a movê-la de uma maneira tão pornográfica que o bébé começou a chorar.
Terminal de autocarros de Valparaíso, Chile.
Uma jovem avó tem o neto sentado ao colo. Para o entreter, decidiu usar a língua. Pôs a língua de fora e começou a movê-la de uma maneira tão pornográfica que o bébé começou a chorar.
Há demasiadas pizzarias em Cusco. Tentei várias: ou eram demasiado caras ou barulhentas, ou eram tão finesse que o empregado aparecia cheio de tiques a encher-te o copo de vinho tantas vezes que dava vontade de o pôr a assar no forno ao lado das pizzas, ou então, como aconteceu uma vez, encontrava um fósforo queimado afogado no molho à bolonhesa. Acabei indo sempre à mesma pizzaria: Mana’s Pizza. Ao princípio ia para comer, passado uns tempos ia para trabalhar. E comer.
Nas noites mais frias, o Mana’s Pizza era o iglô do meu estômago. O forno era um acolhedor aquecedor, os bancos corridos, taberneiros, fazia-nos sentir em casa, toda a comida era temperada com o carinho da familia Umpire. E aquelas pizzas vegetarianas... o queijo derretido sobre uma horta de fantasia punham-me as pupilas gustativas a dançar uma valsa.
Passaram-me a oferecer pizzas de cada vez que lhes levava fregueses. E deixavam-me espreitar na cozinha… Ensinaram-me a delícia do segredo das limonadas, um truque bem latino-americano: duas limas muito pequenas e… três colheres de sopa de açúcar amarelo. Enquanto despachava limonadas, entreolhava a simplicidade com que se pode cozinhar poderosos tacos, nachos e burritos brincando com os ingredientes. É o que dá ter cozinheiros de 11 e 18 anos de idade a trabalhar sozinhos. Daniel, o mais novo, segue os passos do pai, que desde os 13 anos era cozinheiro profissional. Jackson pedia-me que cuidasse dos miúdos quando estavam sozinhos no restaurante. Ali ficava, metade asistente de cozinha, metade segurança.
Fui ficando surpreso com o conhecimento musical do Daniel. Basicamente, delirava com tudo. Ouvia clássicos como “Runaway train” com tanta euforia que me tirava a melancolia. Sabia todas as letras dos Beatles. Os sons, entenda-se. Fizémos um acordo: ensinava-lhe inglês e jogos de cartas e ele ensinava-me quechua e a fazer pizzas.
Eram um encanto de família. Mas nunca estive com eles num Domingo de manhã. Durante a “siesta”, havia às vezes umas reuniões evangélicas informais. Aparecia um casal amigo deles e estavam ali à conversa toda a tarde. Tratavam-se todos por “irmãos”. Um dia, interromperam-nos o jogo de cartas e meteram-me ao barulho.
Margot, a mãe, a mãe de toda a família, disse: “Este rapaz, este rapaz é abençoado! Ontem trouxe-nos dez pessoas para o jantar. Que Deus o acompanhe sempre. Irmão, sabes qual é o apelido dele? Espírito Santo!”.
O irmão, que tinha ar de padre, fitou-me com uma serenidade de assustar, sorriu e poisou a mão no meu ombro. “Jovem, estou convicto que voçê um dia será padre. Poderá até ser o nosso padre. Imagine, o Padre Espírito Santo!”. Todos nos rimos, por diferentes razões. A mão no ombro continuou: “Escute a palavra de Deus, irmão. Que vai fazer no Domingo de manhã, irmão? Não quer aparecer lá na igreja?”
Aqueles cinco dedos pesavam cada vez mais. Safei-me logo com uma hipotética ida domingueira ao mercado da aldeia de Pisac. Entretanto, Abigail, a filha mais velha, fez-me sinal para ir lá fora. Tinha estado o tempo todo bocejando agarrada ao telemóvel, certamente organizando o despacho dos seus pretendentes.
Assim que saímos, perguntei-lhe:
Ouve lá Abi, que história é essa dos 10%?
Ai, já te explico, tenho de contar-te uma coisa.
Então?
Não sabes o que me aconteceu…
Conta…
Dei um beijo ao mexicano.
Qual mexicano?
O hóspede do hotel onde trabalho.
Aquele a quem servimos os nachos no outro dia?
Esse! A minha colega Mayra apostou comigo 10 soles como eu não era capaz de lhe dar um beijo.
Abi!… Deste-lhe um beijo assim do nada?
"Sim!", disse, tentando fechar a boca para nao se rir.
E ele como reagiu?
"Ficou todo embasbacado", disse, tapando a boca com a mao. "Mas depois queria mais!", exclamou, subindo o volume da voz e dando uma risada.
E tu?
Eu nada. Só queria ganhar a aposta! Sabes qual é o problema?… É que a Mayra gosta dele.
E vais aceitar os 10 soles?
Óbvio!
Abi... Esses dezoito anos… Vá, conta-me lá isso dos 10% que estava a tua mãe a falar com o irmao.
Ah… É que os meus pais dão à Igreja 10% do que ganham todos os meses.
Quê?
Sim.
E tu o que achas disso?
É assim, faz parte. Toda a gente lá na igreja tem de dar 10% do que ganha.
Abi, não te dás conta que estas igrejas são lavandarias? Há uns dias dizias que nem eras crente.
Mas agora sou.
Ah sim?
Agora que o senti, acredito Nele.
Como foi que o sentiste?
Um dia, na igreja, senti-o. E agora sei que Ele existe.
Daniel gritou-nos da porta do restaurante: “Abi, Tiago! A pizza está pronta!”


Uma mulher vê-se em dificuldades para subir a cadeira de rodas do seu marido para o passeio.
Ele diz: “Desculpa, amor. Desculpa.”
Ela responde lentamente: “Não peças desculpa. Nunca peças desculpa.”
Subia a encosta para o bairro de San Blas, quando as voltei a ver. Tinha notado a sua presença quase diária, ocupando sempre os mesmo degraus do passeio. Ambas vestiam trajes típicos dos Andes. Chapéu folclórico, casaco folclórico, saia folclórica. A filha estava sentada e acompanhada pelo seu camelídeo de estimação. A mãe tinha o usual pano atado ao peito a fazer de porta-bébés. A maneira como a criança dormia nas suas costas dava a sensação de conforto 1ª classe. Nos braços, a senhora carregava ainda um cordeiro que amamentava com um biberon. Era apenas mais um dia de trabalho.
Olhei para o camelídeo castanho que a filha segurava pela trela. Sabia distinguir as vicunhas, por serem mais pequenas e mais elegantes. Mas entre lamas e alpacas ainda não conhecia as diferenças físicas, apenas as gustativas. Antes de ter podido dizer alguma coisa, a miúda dirigiu-se a mim num sotaque perfeito: One photo my friend? Respondi-lhe em espanhol que não tinha trazido a câmara. Não se desiludiu. Olhar para ela era como apreciar um arco-íris antropomórfico. Mas o que me fixava o olhar eram os seus pómulos escurecidos, queimados pelo frio das madrugadas caminhadas até ao colégio.
Perguntei-lhe: É lama ou alpaca?
Alpaca. Chama-se Teresa.
Tentei fazer-lhe uma festa mas a Teresa desconfiou e afastou a cabeça. Conseguia ver-me reflectido na protuberância choramingona dos seus olhos.
Quantos meses tem?
Pouquitos.
Pouquitos?, perguntei sorrindo.
Sim, respondeu, sorrindo de volta.
E como se vê a diferença entre lama e alpaca?
O mais fácil é ver pelo focinho. O dos lamas é muito mais comprido. E as orelhas também.
Olha, e quanto cobras por uma foto?
Um sol. Mas há turistas que me dão notas de 10 soles.
De repente, gerou-se uma tensão no ar assim que a mãe atendeu o telemóvel. A filha evaporou a minha presença e olhava-a expectante. Durante a curta chamada apenas disse: “Ya… ya… ya!”, desligou, falou tão rápido para a filha que não percebi o que disse nem se falou espanhol ou quéchua, começaram as duas a correr sorridentes encosta acima dando um movimento de cores às paredes rochosas, como duas araras a esvoaçar entre as árvores. Não foi fácil acompanhar-lhes o ritmo. Juntaram-se a outra senhora que as estava esperando junto de um grupo de turistas. Pouco depois um deles pôs-se em posição de felicidade. A foto perfeita: o turista alto, loiro e fora de série, a mãe, a filha, o arco-íris, o bébé, a Teresa, o cordeiro e o biberon. Flash!
Foi tudo tão rápido que só mais tarde consegui tirar conclusões. Folclore. Ganhou para mim uma nova perspectiva. Folclore, saber do povo, a modernidade. Respeito. Respeito pela sensatez de disfarçar-se e usar o telemóvel como quem usa walkie-talkies para tirar bom proveito do nicho de mercado das recordações da Disneylândia.
Expressões coloquiais usadas no final das frases para enfatizar ideias: os peruanos usam “pe”, os chilenos usam “po”, os portugueses usam “pa”.
Voltas às ruas, onde compras uma fatia de ananás para te acompanhar. Da porta de um restaurante um empregado mostra-te o menu: Pizza, mister? Começas a arrastar o “no” porque já se está a tornar penoso. "Noooooo, gracias." Uns metros mais à frente, outro vendedor de “Rei Bãs”. Finjes que nem o vês. Procuras um banco desocupado na Praça de Armas. Sentas-te. Levas com a imponência da praça à tua volta. Imaginas como terá sido a execução do rebelde indígena Tupac Amaru II. Primeiro mataram-lhe a família à sua frente. Depois cortaram-lhe a língua. Depois tentaram quarteja-lo mas não funcionou. Foi de guilhotina. Dás-te conta da carga histórica desta cidade. Percebes a razão por que apesar das dúvidas sobre a grafia mais correcta – Cusco, Cuzco ou Qusqo - os peruanos a tratam sempre por “El” Cusco. Imaginas os americanos a chamar a Nova Iorque “The” New York… Uma morena bonitinha distrai-te dos pensamentos: "massagem terapêutica, amigo?" Depois de tanta repetição, optas pela originalidade:
Quanto custa a massagem?
30 soles.
30 é caro. Dás-me 10 soles e eu faço-te a massagem.
Oh, amigo…
Segues o teu caminho, que está a anoitecer. Não escapas: "Senhor, um tour ao Machu Picchu amanhã?" Depois de teres visitado quase todas as ruínas do Vale Sagrado dos Incas e de teres estado no Machu Picchu sem recorrer a tours, inchas as bochechas e expiras com força. E depois respondes: "Machu Picchu? O que é isso?"
Mal o sol se esconde por detrás da colina de San Cristobal, antecipando o crepúsculo, a pergunta mais metafísica que te podes fazer é “Quem é que desligou o aquecedor?”. As noites em Cusco são gélidas, mas muito calientes. Todos as noites é febre de sábado à noite. Quando um grupo de gringos se aproxima da zona das discotecas, há sempre uns tipos que correm para eles desenfreadamente a oferecer-lhes papelinhos em que se pode ler as seguintes palavras mágicas: free drink. Não te apetece mas eles insistem. “Mas é gratis, mister…” Cusco é provavelmente o único lugar do mundo em que visitas ruínas incas de dia e à noite te arruínas. De dia vais a Moray, Tipón, Sacsayhuamán. De noite visitam-te pisco sour, cuba libre, mojito. Lá dentro, até algum reggaeton te faz mexer mais que a omnipresenca de one more time, tonight is gonna be a good night, waka waka, porque esto es africa! Aqui todos parecem dançar mais do que fariam nos seus países. Outrora capital do Império Inca, Cusco podia ser considerada agora a capital mundial da promiscuidade turística.
É mais do mesmo. Decides ir para casa descansar. Antes de sair ofereces os papeis de free drink a uns desconhecidos. Lá fora enquanto pões o cachecol à volta do pescoço és perseguido por uma miudita que abana pacotes de chicletes.
Chicle, amigo? Chicle? Um sol, um sol.
Nooooooooo, gracias.
Faz um estalido com a boca e dá meia volta, mas ainda a ouço dizer:
E cocaína, queres?
No, grac…
Páras. Vês a miúda a correr a fazer percussão com o pacote de chicletes, e a acerca-se de um grupo de turistas. Ela não tem nem doze anos.
A música continua a bombar das discotecas, são duas da manhã e a noite ainda é mesmo uma criança.