24.10.10

Coisas da vida 3

Terminal de autocarros de Valparaíso, Chile.

Uma jovem avó tem o neto sentado ao colo. Para o entreter, decidiu usar a língua. Pôs a língua de fora e começou a movê-la de uma maneira tão pornográfica que o bébé começou a chorar.

Novo testamento e pizzas vegetarianas

Há demasiadas pizzarias em Cusco. Tentei várias: ou eram demasiado caras ou barulhentas, ou eram tão finesse que o empregado aparecia cheio de tiques a encher-te o copo de vinho tantas vezes que dava vontade de o pôr a assar no forno ao lado das pizzas, ou então, como aconteceu uma vez, encontrava um fósforo queimado afogado no molho à bolonhesa. Acabei indo sempre à mesma pizzaria: Mana’s Pizza. Ao princípio ia para comer, passado uns tempos ia para trabalhar. E comer.


Nas noites mais frias, o Mana’s Pizza era o iglô do meu estômago. O forno era um acolhedor aquecedor, os bancos corridos, taberneiros, fazia-nos sentir em casa, toda a comida era temperada com o carinho da familia Umpire. E aquelas pizzas vegetarianas... o queijo derretido sobre uma horta de fantasia punham-me as pupilas gustativas a dançar uma valsa.


Passaram-me a oferecer pizzas de cada vez que lhes levava fregueses. E deixavam-me espreitar na cozinha… Ensinaram-me a delícia do segredo das limonadas, um truque bem latino-americano: duas limas muito pequenas e… três colheres de sopa de açúcar amarelo. Enquanto despachava limonadas, entreolhava a simplicidade com que se pode cozinhar poderosos tacos, nachos e burritos brincando com os ingredientes. É o que dá ter cozinheiros de 11 e 18 anos de idade a trabalhar sozinhos. Daniel, o mais novo, segue os passos do pai, que desde os 13 anos era cozinheiro profissional. Jackson pedia-me que cuidasse dos miúdos quando estavam sozinhos no restaurante. Ali ficava, metade asistente de cozinha, metade segurança.


Fui ficando surpreso com o conhecimento musical do Daniel. Basicamente, delirava com tudo. Ouvia clássicos como “Runaway train” com tanta euforia que me tirava a melancolia. Sabia todas as letras dos Beatles. Os sons, entenda-se. Fizémos um acordo: ensinava-lhe inglês e jogos de cartas e ele ensinava-me quechua e a fazer pizzas.




Eram um encanto de família. Mas nunca estive com eles num Domingo de manhã. Durante a “siesta”, havia às vezes umas reuniões evangélicas informais. Aparecia um casal amigo deles e estavam ali à conversa toda a tarde. Tratavam-se todos por “irmãos”. Um dia, interromperam-nos o jogo de cartas e meteram-me ao barulho.


Margot, a mãe, a mãe de toda a família, disse: “Este rapaz, este rapaz é abençoado! Ontem trouxe-nos dez pessoas para o jantar. Que Deus o acompanhe sempre. Irmão, sabes qual é o apelido dele? Espírito Santo!”.


O irmão, que tinha ar de padre, fitou-me com uma serenidade de assustar, sorriu e poisou a mão no meu ombro. “Jovem, estou convicto que voçê um dia será padre. Poderá até ser o nosso padre. Imagine, o Padre Espírito Santo!”. Todos nos rimos, por diferentes razões. A mão no ombro continuou: “Escute a palavra de Deus, irmão. Que vai fazer no Domingo de manhã, irmão? Não quer aparecer lá na igreja?”


Aqueles cinco dedos pesavam cada vez mais. Safei-me logo com uma hipotética ida domingueira ao mercado da aldeia de Pisac. Entretanto, Abigail, a filha mais velha, fez-me sinal para ir lá fora. Tinha estado o tempo todo bocejando agarrada ao telemóvel, certamente organizando o despacho dos seus pretendentes.


Assim que saímos, perguntei-lhe:


Ouve lá Abi, que história é essa dos 10%?

Ai, já te explico, tenho de contar-te uma coisa.

Então?

Não sabes o que me aconteceu…

Conta…

Dei um beijo ao mexicano.

Qual mexicano?

O hóspede do hotel onde trabalho.

Aquele a quem servimos os nachos no outro dia?

Esse! A minha colega Mayra apostou comigo 10 soles como eu não era capaz de lhe dar um beijo.

Abi!… Deste-lhe um beijo assim do nada?

"Sim!", disse, tentando fechar a boca para nao se rir.

E ele como reagiu?

"Ficou todo embasbacado", disse, tapando a boca com a mao. "Mas depois queria mais!", exclamou, subindo o volume da voz e dando uma risada.

E tu?

Eu nada. Só queria ganhar a aposta! Sabes qual é o problema?… É que a Mayra gosta dele.

E vais aceitar os 10 soles?

Óbvio!

Abi... Esses dezoito anos… Vá, conta-me lá isso dos 10% que estava a tua mãe a falar com o irmao.

Ah… É que os meus pais dão à Igreja 10% do que ganham todos os meses.

Quê?

Sim.

E tu o que achas disso?

É assim, faz parte. Toda a gente lá na igreja tem de dar 10% do que ganha.

Abi, não te dás conta que estas igrejas são lavandarias? Há uns dias dizias que nem eras crente.

Mas agora sou.

Ah sim?

Agora que o senti, acredito Nele.

Como foi que o sentiste?

Um dia, na igreja, senti-o. E agora sei que Ele existe.


Daniel gritou-nos da porta do restaurante: “Abi, Tiago! A pizza está pronta!”



21.10.10

Surtido a pedido

No mercado:
"Senhora, pode pôr um bocadinho de tudo?"


Chicharrón de porco, tallarines, batatas guisadas, mote (grão de trigo cozido), ceviche

Professora Lívia

"Olá senhora, uma água por favor.” A sede era menor que a vontade de saciar a curiosidade sobre aquele chapéu. Só o tinha visto em algumas senhoras nos mercados de Cusco, dando-lhes um ar de divas andinas. Um estilo quase urbano, muito trendy.

Mandou-me entrar e escolher a água que queria. Não se moveu do lugar. Sentada nas escadas de entrada à sua lojinha de conveniência, tinha a seus pés a cidade cusquenha.


Fiz o que tinha a fazer: "Senhora, como chama a esse chapéu? "
“Sombrero” de mestiça.
"Hmmm… E a cor do laço tem algum código?"
"Não. Mas só nós as mestiças é que usamos."
"Gosto muito. Vi-o em algumas senhoras no mercado…"
"Sim, muita gente usa."
"Sim… Mas as raparigas novas não…"
"Oh, não querem… As raparigas agora nem saia usam! A minha mãe sempre dizia que só quem é profissional, quem tem estudos, é que pode usar calças. Agora todas querem usar calças, tenham estudado ou não!"

Deixei-me ficar por ali a beber a água, devagarinho. A calma do entardecer foi interrompida de surpresa por um cão que ia atrás de outro cão que ia atrás de outro cão que ia atrás de outro cão, descendo a correr a escadaria poeirenta com as línguas de fora. Não percebi se era brincadeira ou se o caso seria um osso duro de roer. Veio à mente a imagem de homens a fazer o mesmo naquelas escadas. À velocidade máxima, não haveria um que não se estatelasse.
A senhora comentou: "
É sempre a mesma coisa… Se pudesse, punha veneno a esses cães todos. Por aí vadios…"

Convidou-me a sentar. Perguntou:
"E o seu chapéu?"
"Boliviano."
"Vende-mo?"
"Como??"
"Quanto pagou por ele?"
"Hmmm, não sei quanto será em soles… Foi barato. Na Bolívia, sabe como é…
"
"Dou-lhe 60 soles."
"Senhora, não o quero vender", respondi embaraçado. "
Podíamos fazer uma troca... Mas não a quero ver sem esse chapéu, fica-lhe bem! "
Ah, “me enamoré de ese sombrero”.


Não pude deixar de ver o gracioso da situação. Ora aqui estava uma paixão recíproca de se lhe tirar o chapéu.

"Ima sutiki?", perguntei.
"Lívia." Do que falou a seguir só entendi a palabra quechua…
"Estou a aprender. É difícil."
"Ensino-te. Que queres saber? "


E foi assim.
Que começaram as lições de quechua dos fins de tarde.
Mais do que necessidade, sinto-o sempre como uma obrigacão aprender o mais possível do idioma ou dialecto local. É divertido e é um acto de magia. Em Cusco, bastava-me dizer “Alalau!” para um encantamento psicolinguístico acontecer. O sorriso, a surpresa, a confiança. “Sim, está muito frio”.

"Professora, pajarin kama!"
"Até amanhã!"
No final das curtas “lições”, sempre lhe estendia a mão para me despedir. Dava-me o pulso. Nunca a mão. Só quando lhe entreguei a fotografia que lhe tinha prometido, na última vez que a vi, que a Professora Lívia tomou a iniciativa e estendeu a mão para o cumprimento. Senti na sua palma as asperezas das memórias andinas.

19.10.10

Coisas da vida 2

Uma mulher vê-se em dificuldades para subir a cadeira de rodas do seu marido para o passeio.

Ele diz: “Desculpa, amor. Desculpa.”

Ela responde lentamente: “Não peças desculpa. Nunca peças desculpa.”

Cusco, Cuzco, Qusqo (pt. 2)

Os episódios da primeira parte do texto são tão comuns em Cusco que se tornam triviais, mas o que vou relatar em seguida presenciei-o depois de algumas semanas de aqui estar e ainda assim me provocou um pasmo tal que me deu vontade de rir.

Subia a encosta para o bairro de San Blas, quando as voltei a ver. Tinha notado a sua presença quase diária, ocupando sempre os mesmo degraus do passeio. Ambas vestiam trajes típicos dos Andes. Chapéu folclórico, casaco folclórico, saia folclórica. A filha estava sentada e acompanhada pelo seu camelídeo de estimação. A mãe tinha o usual pano atado ao peito a fazer de porta-bébés. A maneira como a criança dormia nas suas costas dava a sensação de conforto 1ª classe. Nos braços, a senhora carregava ainda um cordeiro que amamentava com um biberon. Era apenas mais um dia de trabalho.

Olhei para o camelídeo castanho que a filha segurava pela trela. Sabia distinguir as vicunhas, por serem mais pequenas e mais elegantes. Mas entre lamas e alpacas ainda não conhecia as diferenças físicas, apenas as gustativas. Antes de ter podido dizer alguma coisa, a miúda dirigiu-se a mim num sotaque perfeito: One photo my friend? Respondi-lhe em espanhol que não tinha trazido a câmara. Não se desiludiu. Olhar para ela era como apreciar um arco-íris antropomórfico. Mas o que me fixava o olhar eram os seus pómulos escurecidos, queimados pelo frio das madrugadas caminhadas até ao colégio.

Perguntei-lhe: É lama ou alpaca?

Alpaca. Chama-se Teresa.

Tentei fazer-lhe uma festa mas a Teresa desconfiou e afastou a cabeça. Conseguia ver-me reflectido na protuberância choramingona dos seus olhos.

Quantos meses tem?

Pouquitos.

Pouquitos?, perguntei sorrindo.

Sim, respondeu, sorrindo de volta.

E como se vê a diferença entre lama e alpaca?

O mais fácil é ver pelo focinho. O dos lamas é muito mais comprido. E as orelhas também.

Olha, e quanto cobras por uma foto?

Um sol. Mas há turistas que me dão notas de 10 soles.

De repente, gerou-se uma tensão no ar assim que a mãe atendeu o telemóvel. A filha evaporou a minha presença e olhava-a expectante. Durante a curta chamada apenas disse: “Ya… ya… ya!”, desligou, falou tão rápido para a filha que não percebi o que disse nem se falou espanhol ou quéchua, começaram as duas a correr sorridentes encosta acima dando um movimento de cores às paredes rochosas, como duas araras a esvoaçar entre as árvores. Não foi fácil acompanhar-lhes o ritmo. Juntaram-se a outra senhora que as estava esperando junto de um grupo de turistas. Pouco depois um deles pôs-se em posição de felicidade. A foto perfeita: o turista alto, loiro e fora de série, a mãe, a filha, o arco-íris, o bébé, a Teresa, o cordeiro e o biberon. Flash!

Foi tudo tão rápido que só mais tarde consegui tirar conclusões. Folclore. Ganhou para mim uma nova perspectiva. Folclore, saber do povo, a modernidade. Respeito. Respeito pela sensatez de disfarçar-se e usar o telemóvel como quem usa walkie-talkies para tirar bom proveito do nicho de mercado das recordações da Disneylândia.


18.10.10

Coisas da vida 1

Expressões coloquiais usadas no final das frases para enfatizar ideias: os peruanos usam “pe”, os chilenos usam “po”, os portugueses usam “pa”.

16.10.10

Cusco, Cuzco, Qusqo (pt. 1)

Cusco é uma cidade perfeita para caminhar, o que não deixa de ser irónico. Sais do hostel e queres é deixar-te perder pelas ruelas e vielas labirínticas, subir e descer escadinhas e ladeiras e andar em passeios de meio metro de largura. Mas estás a 3400 metros acima do nível do mar, dás uns passos numa lomba mais inclinada e pões-te a sonhar com botijas de oxigénio. E queres continuar. Escutas os teus próprios passos silenciosos e sentes-te um aldeão. Escolhes as ruas pedonais. Passas pela Hatun Rumiyoc e atravessas o normal alvoroço de guias e turistas à volta da pedra dos doze ângulos. Observas com atenção esse muro inca e o modo como os pedregulhos encaixam na perfeição. Não tens dúvidas: os incas foram os primeiros jogadores de tetris da história da humanidade. Só que depois chegaram os espanhóis e começou-lhes a piscar o game over. Os conquistadores destruíram os templos e palácios incas de Cusco e ergueram em cima dessas ruínas as igrejas e as casas com as varandinhas.

Ainda não andaste cinco minutos e começa o festival. "Massagem terapêutica, mister?" Respondes com a frase mais ouvida em Cusco: "No, gracias". O dia está só a começar. Sentas-te na escadaria da Igreja principal a observar pessoas na Praça de Armas. Desfrutas da fotossíntese. O brilho celeste impõe-se sobre o vale e recorta as montanhas. É Agosto, passam dias e dias sem que consigas ver uma nuvem. Um tipo aproxima-se a tentar vender-te óculos “Rei Bã”. Dizes "No gracias" e levantas-te. Passas pelo meio de mais uma manifestação, desta vez protestam contra a exportação de gás natural. Pouco depois, uma senhora abre um caderno cheio de pinturas e ilustrações. "Um recuerdo, jovem?" "No, gracias."




Vais tomar o pequeno almoço ao mercado San Pedro. Pedes um pão recheado com o que te vier a cabeça, inventas um sumo de maçã e maracujá. Estás a sugar da palhinha quando um miúdo se aproxima com uma caixa de rebuçados. Não diz uma palavra. Inclina a cabeça para o lado e olha-te nos olhos. "No, gracias. Mais tarde..."

Voltas às ruas, onde compras uma fatia de ananás para te acompanhar. Da porta de um restaurante um empregado mostra-te o menu: Pizza, mister? Começas a arrastar o “no” porque já se está a tornar penoso. "Noooooo, gracias." Uns metros mais à frente, outro vendedor de “Rei Bãs”. Finjes que nem o vês. Procuras um banco desocupado na Praça de Armas. Sentas-te. Levas com a imponência da praça à tua volta. Imaginas como terá sido a execução do rebelde indígena Tupac Amaru II. Primeiro mataram-lhe a família à sua frente. Depois cortaram-lhe a língua. Depois tentaram quarteja-lo mas não funcionou. Foi de guilhotina. Dás-te conta da carga histórica desta cidade. Percebes a razão por que apesar das dúvidas sobre a grafia mais correcta – Cusco, Cuzco ou Qusqo - os peruanos a tratam sempre por “El” Cusco. Imaginas os americanos a chamar a Nova Iorque “The” New York… Uma morena bonitinha distrai-te dos pensamentos: "massagem terapêutica, amigo?" Depois de tanta repetição, optas pela originalidade:

Quanto custa a massagem?

30 soles.

30 é caro. Dás-me 10 soles e eu faço-te a massagem.

Oh, amigo…

Tens muitos amigos, tu...

Segues o teu caminho, que está a anoitecer. Não escapas: "Senhor, um tour ao Machu Picchu amanhã?" Depois de teres visitado quase todas as ruínas do Vale Sagrado dos Incas e de teres estado no Machu Picchu sem recorrer a tours, inchas as bochechas e expiras com força. E depois respondes: "Machu Picchu? O que é isso?"

Mal o sol se esconde por detrás da colina de San Cristobal, antecipando o crepúsculo, a pergunta mais metafísica que te podes fazer é “Quem é que desligou o aquecedor?”. As noites em Cusco são gélidas, mas muito calientes. Todos as noites é febre de sábado à noite. Quando um grupo de gringos se aproxima da zona das discotecas, há sempre uns tipos que correm para eles desenfreadamente a oferecer-lhes papelinhos em que se pode ler as seguintes palavras mágicas: free drink. Não te apetece mas eles insistem. “Mas é gratis, mister…” Cusco é provavelmente o único lugar do mundo em que visitas ruínas incas de dia e à noite te arruínas. De dia vais a Moray, Tipón, Sacsayhuamán. De noite visitam-te pisco sour, cuba libre, mojito. Lá dentro, até algum reggaeton te faz mexer mais que a omnipresenca de one more time, tonight is gonna be a good night, waka waka, porque esto es africa! Aqui todos parecem dançar mais do que fariam nos seus países. Outrora capital do Império Inca, Cusco podia ser considerada agora a capital mundial da promiscuidade turística.

É mais do mesmo. Decides ir para casa descansar. Antes de sair ofereces os papeis de free drink a uns desconhecidos. Lá fora enquanto pões o cachecol à volta do pescoço és perseguido por uma miudita que abana pacotes de chicletes.

Chicle, amigo? Chicle? Um sol, um sol.

Nooooooooo, gracias.

Faz um estalido com a boca e dá meia volta, mas ainda a ouço dizer:

E cocaína, queres?

No, grac…

Páras. Vês a miúda a correr a fazer percussão com o pacote de chicletes, e a acerca-se de um grupo de turistas. Ela não tem nem doze anos.

A música continua a bombar das discotecas, são duas da manhã e a noite ainda é mesmo uma criança.

13.10.10

O melhor mel fermenta a longo prazo

I

Pessoas perguntam-me: quando é o teu voo de volta? Respondo: “Nao tenho”. Pessoas perguntam-me: quando regressas ao teu país? “Nao sei”. Pessoas perguntam-me: quanto tempo tens para viajar? Respondo: “Descobri que essa nao é a pergunta certa. Nao tenho tempo, tenho dinheiro. O tempo depende de como o gastar. Por isso uso o dinheiro com cuidado, para esticar o tempo”.
A progenitora perguntou-me: mas que andas a fazer? “Estou a viver”, respondi. Nao lhe contei que um dia, sem dizer a ninguém, meti na cabeça que ia viajar durante um ano antes dos 30. Está a acontecer. Que ando a fazer? Estou apenas a ser fiel à minha vocaçao. A ter a coragem de ser livre.

E os amigos perguntam-me porque deixei de escrever. Vou sempre escrevinhado aqui e ali, da mesma maneira que uma criança se esquece de um brinquedo mal vê outro. Nao escrevo quanto devia por falta de atençao à desatençao e por ausencia da receita médica de Ritalina. Mas o maior problema é a abundancia dos estrogénios das Ritas e Linas deste mundo. O poeta diz que o sonho comanda a vida. Para mim nao é o sonho, é a mulher que comanda a vida.

II

De Portugal as novidades resumem-se sempre na palavra crise. As vozes pedagógicas tentaram chamar-me à razao: parece que haveria uma grande grande empresa que estaria interessada em mim. Daquelas empresas que te dao contratos vitalícios e subsídios para atirar ao Pai Natal. Uma ovelhinha nao pensaria duas vezes. Também só pensei uma vez. Nao me deixei sequer ponderar a proposta. Preferia morrer que viver moribundo, sem sonhos, contribuindo para o desequilibrio do mundo.

Havia um sonho por cumprir. Durante o estágio Inov-Art na Argentina reduzi as despesas ao máximo. Poupei dígitos suficientes para viajar um ano na américa do sul e ainda ter um fôlego ambulância no final da viagem. Como poderia voltar ao luso-ninho com tanto mapa por explorar? O déjà-vu é sempre um efeito airoso mas e a Bolívia? E o Paraguai e a Patagónia? E os sonhos de menino? Aos oito anos o atlas universal era a minha almofada.

Anoitecia o dia 24 de Dezembro de 2009 quando me sentei no primeiro autocarro. À minha espera, 36 horas de rabo quadrado. Passei o dia de Natal a rodoviar pela Patagónia. A ideia era passar o reveillón a tiritar de frio em Ushuaia para depois ir subindo sem pressas, sem avioes, sob planeamento logo-se-vê. Único objectivo, passar o fim-de-ano seguinte numa praia deserta no norte da Colômbia.

III

Porque é a única maneira genuina de viajar, obviamente vou sozinho. Desconstrua-se essa interpretacao equivocadissima: ser solitário nao é ser triste. Tenho sempre a minha companhia para me entreter.

Em duas pequenas mochilas juntei pouca roupa, equipamento de fotografía e vídeo e uns vinte quilos em livros. Optei por nao levar o portátil. Queria olhar o mundo. Logo me dei conta dos mochileiros estarem viciados nessa página azul e branca com fotografiazinhas felizes. De passarem grande parte do tempo nos hostels, sentados, colados ao ecra. Descobri depois que se nao usasse o facetruque deixaria de saber dos meus amigos – os verdadeiros. Tentei adaptar-me ao frenesim até que me cansei. Nao preciso de me nutrir de polegarzinhos no ar para ser feliz, o que preciso é de escrever. E nao para este blog. Estes escritos serao para mim aquela corridinha matinal antes de começar a trabalhar. Aqui, os textos nao estao entremeados pelas publicidades, que é para o que servem as revistas de viagem. E quase todas as outras.

Desapareço do mapa para aparecer na ponta da caneta. Quando escrevo, escrevo-me. Sem medo de ser desinteressante. “As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”: Fernando Pessoa. Leio para ler pessoas. Aborrecem-me as canetas sem personalidade, canetas mascaradas pelas técnicas e regras jornalísticas. Detecto-as a léguas, como os piratas. Às regras, o autoclismo. Aprendi a inverter os conselhos dos outros. Cansei-me de castradores hipócritas. Começo desde o princípio do ego, nú, fora-da-lei do “evitar do eu”, para me ir revestindo da pele e roupa das pessoas às quais sou transeunte.

IV

Despair is the armchair é uma frase de Paul Theroux, o famoso escritor de viagens. O desespero é o sofá, porque o sofá pode ser o nosso primeiro caixao. Mas é a melodia de Despair is the armchair que me dá o sinal. Theroux escreveu que nao aprecia relatos de viagem que começam a meio. Está certo. (Mas começar onde se a minha viagem começou há 28 anos?) Iniciei um diário leviano ainda antes de deixar Buenos Aires. Mantive-o durante meses. Quando cheguei à fronteira do deserto do Chaco no norte do Paraguai, a estrada acabava. Era aí que começava a Bolívia. E o meu diário parou durante semanas. O volume da TV nos cafés tornou-se um rugido infernal, as luzes viraram luz de cozinha, as pessoas tornaram-se rádios ambulantes, o calor, o caos do trânsito… Nao. Foi mais o outro problema. Comanda.

O blogue comecará desde a minha estadia em Cusco, o lugar mais turístico da américa do sul. Durante o mês e pico que lá passei, vi muitas coisas que me remexeram a lava.
Quando segui marcha para o norte, decidi ir passando pelos lugares menos corrompidos pela indústria do turismo, onde tudo é mais difícil e menos aborrecido. Decidi que tinha de ir à província de Condorcanqui, uma área no norte do Peru que nao é mencionada nem está no mapa do Lonely Planet Peru Ediçao 2010, que pedi para consultar a um turista. Onde muito poucos lá vao, vou lá. Prefiro o perigo e nao o conheço.

A voz fermentou. Está no ponto a servir. Tenho p’ra dar um caldinho de três ingredientes: amor, furor e humor. Chegam. Confio na minha caneta preta.