13.12.10

Ceviche!

A mais famosa delicia peruana: peixe cru marinado em limão.

Chan Chan - fotos




6.12.10

O céu de Lima é cinzento para todos

E. despedia-se de mim com um Tchau! tao ríspido que era como se eu fosse um empregado seu que lhe tivesse acabado de lhe quebrar uma jarra valiosa. Convidou-me para ficar em sua casa em Lima nao sei muito bem porquê. Por simpatia. Ou porque podia. Apresentava-me aos amigos como o amigo de Portugal. Vegetariana, a sua dieta baseava-se em chocolates, bolachas com chocolate, batatas fritas, doces, caramelos de chocolate, café com duas três quatro colheres de açúcar amarelo e depois queixava-se que estava inchada. Tinha o comum almofadado de gordura à volta da cintura mas ainda assim os homens pasmavam-lhe as curvas e as mulheres os caracois.


Estava a abrir a porta da sua casa num dos bairros mais luxuosos de Lima, quando me disse “Tenho uma vida muito complicada, Tiago”. Dei-lhe uma estalada com o olhar. Com 19 anos tinha acabado de assinar a burocracia que dizia que ela era a proprietaria do apartamento T3. Com ela viviam dois primos, deprimidos. O primo gay, deprimido por excesso de trabalho, a prima por ter acabado uma relaçao amorosa. Ela tambem estava a faltar as aulas na universidade privada mas nao sabia bem porquê. Estavam os três a degustar uns churros gourmet num restaurante em que a gorjeta que deixavam daria para alimentar uma familia inteira, e a discutir quem é que tinha mais razoes para estar deprimido. E. disse: “A minha mae vem na quarta-feira dos EUA. (suspiro) Vou ser milionária outra vez.” Disse-o como se isso fosse fonte de aborrecimento. O tédio de nascer com miminhos de filigrana.


Vi mais casinos em quatro ou cinco quarteiroes do bairro limenho de Miraflores que todos os restantes que tinha visto na america do sul. Os empresarios da elegancia, sentados nas esplanadas, apreciavam o ritmo passageiro de sofisticados saltos altos que irrompiam o silêncio formal. O céu, cinzento como sempre. Lima é uma cidade onde quase chove nove meses por ano. A bruma é constante, nao tanto em Miraflores, onde as luzes, Pizza Hut, Burguer King, Starbucks, e todas essas iluminaçoes ofuscam o olhar como em qualquer outra cidade do mundo. Mas mesmo sob aquele salpilhar de cores a névoa densa dos céus nao escolhia ricos e pobres.


Fora do bairro de Miraflores, do outro lado da cidade, era outro país. O caos, a poluiçao sonora, suficientemente explosiva para chamar o otorrino. A miséria. Sentia-se nos olhares, no corropio de mercadorias carregadas às costas no bairro chinês. O lixo era comida perdida, que alimentava o asfalto sujo. O céu cinzento era escurecido pelos fumos saídos dos escapes dos automóveis parados no trânsito, nuvens fantasmagóricas que apareciam e desapareciam no ar. Havia tantos autocarros que era difícil saber qual ia de volta a Miraflores. Antes de ter tempo para perguntar a alguém, um rapaz vestido com os restos de uma t-shirt que já nao era branca, que ganhava uns trocos ajudando as pessoas a subir aos autocarros, começou a chamar-me, aos gritos, com uma urgência de salva-vidas, apontava para o autocarro, apontava para mim, apontava para o autocarro e gritava para mim em berros roucos “MIRAFLORES, MIRAFLORES! TU, TU, MIRAFLORES!” Adivinhou-me o destino. Continuou a gritar: “MIRAFLORES, AQUI! FLOWERS FLOWERS AQUI ENTRA ENTRA!”


Agradeci e entrei a rir-me no autocarro. A viagem no trânsito parado de hora de ponta demorou mais do que se fosse caminhando. O céu continuava nem claro nem escuro, apenas e mais uma vez imperialmente cinzento. Mas viajar do centro de Lima para o bairro de Miraflores foi como viajar do negro para o branco, da ausência de cor para a soma de todas as cores. E em nenhuma capital sul-americana tinha eu visto o negro tão negro e o branco tão branco.

3.12.10

Quem não vota paga multa

Quando há eleiçoes, as promessas resumem-se nisto: uns prometem continuidade, outros prometem mudança. É tao simples e banal que dá que desconfiar. Mas, surpreendentemente, as eleiçoes autárquicas de 2010 no Perú revelaram um sem número de talentosos pintores.


Via-se na qualidade dos frescos nas paredes das casas ou na proliferaçao de quadros impressionistas junto às estradas, já que dá mesma maneira que o McDonald’s usa o amarelo para transmitir a sensaçao de fome, os estudiosos do marketing político resolveram confiar na propaganda pictórica para convencer o eleitorado que, no caso do Peru, é obrigado a votar. Entao, para simplificar o trabalho, dos políticos entenda-se, é designado a cada partido um bonequinho que dê votos. Alguns apelam ao patriotismo dos símbolos nacionais, como o lama, a planta de quinua ou até o mapa do Peru. Também há referencias à cultura andina: a tuna ou o chapéu. Outros tentam aceder ao eleitor campesino, usando símbolos como o trigo ou a árvore. Há quem aposte num design que transmita a ideia de trabalho e competência, como o lápiz ou o carrinho de mao.
Mas nao havia dúvida de quem estava em vantagem eleitoral na regiao de Ayacucho. Nao era preciso sondagens. A escolha do símbolo foi de uma perspicacia de dar pele de galinha a publicitários. Era óbvio que ia ganhar a bola de futebol. Além de ser um pujante símbolo de uma eficácia demolidora de consciências, a bola estava pintada por todo o lado que era possível. Numa mistura extraordinaria de gás, bolas de futebol e política, o candidato a presidente regional Rofilio Neyra, presidente do clube de futebol Inti Gas Deportes Ayacucho, avisa que “CON LA PELOTA…. TODO AYACUCHO SERA GANADOR.”




Em vésperas de eleiçoes os terminais de autocarros estavam a abarrotar de passageiros. Já em viagem, e depois de ser filmado por breves segundos pelo segurança da companhia rodoviaria, perguntei à senhora do lado:
“Está a viajar para votar?”
“Nao. Fui ver o meu marido a Trujillo, está internado no hospital.”
“Que passou?”
“Teve um acidente de mototaxi… vai ficar sem uma vista.”
“E como vai fazer para votar?”
“Pois, o medico ainda nao me deu o atestado para provar que nao pode ir votar. Se nao tenho de pagar a multa.”
Outra senhora meteu-se na conversa:
“Ah, eu nao vou votar. Sai-me mais caro ir votar que pagar a multa. Se nao votar pago a multa, que sao 80 soles. Mas como eu ainda estou registada em Arequipa, onde nasci, tenho de gastar mais de 100 soles para ir la votar e voltar. Nao vou gastar tanto só para votar...“
Desta obrigaçao de voto e da consequente lei seca concluia-se que a industria de bebidas nao gosta muito de eleicoes mas a indústria dos transportes privados lhe faz um brinde.
Nao houve uma pessoa que me tivesse respondido o partido em que ia votar. Todos me respondiam que “ainda nao sabiam” ou que “sao todos maus”.

Em Lima, a eleiçao era histórica. Era a primeira vez que os dois principais candidatos eram mulheres, o que significava que pela primeira vez seria eleita uma senhora alcalde na capital peruana. A candidata de esquerda, Susana Villarán, foi apanhada num vídeo a chamar “cadela” à opositora. Esta, Lourdes Flores, disse numa entrevista antes das eleiçoes que a autarquia de Lima “a podiam meter pelo recto, que nao lhe interessava para nada.”
No dia 3 de outubro de 2010 o Peru foi a votos. Vinte dias depois ainda estavam a contar os votos da capital e ainda nao havia vencedor oficial.

Ayacucho - Huancayo

Li-lhe a plaquinha junto ao seu seio esquerdo: “Lourdes”.
“Bom dia Lourdes.” Olhou-me com atenção redobrada. Perguntei-lhe quanto custava o bilhete para Huancayo.
“Lourdes, e sabe de que lado fica o abismo?”
“De que lado é o abismo?“

“Sim, a estrada até Huancayo não segue o rio? De que lado é o rio?"
”Acho que é… é do lado esquerdo”, disse a franzir a face.
Pedi-lhe que me desse um lugar à janela, do lado esquerdo. A cara franziu-se-lhe ainda mais.
“Se vou morrer, quero ver como é”, disse-lhe.
Piscou os olhos três vezes, até perceber que era uma piada.
“Nome?”
Respondi.
“Apelido?”
Respondi.
Levantou a cabeça, e piscou outra vez os olhos.
“Espirito Santo?”
“Isso mesmo.”
Virou-se para a colega e disse: “Este chama-se Espirito Santo diz”, usando o verbo no final da frase, típico do espanhol andino.
“Deixe-me ver o seu passaporte.”
“Deixo-lhe ver o que quiser, Lourdes”. Não conseguiu conter o riso, folheou o passaporte e devolveu-mo escondendo a cara. Imprimiu o bilhete, em que estavam escritos tanto o meu nome como o dela. Quando fui pôr a mochila no autocarro, o encarregado das bagagens perguntou-me se era só isso e esc
reveu nas costas do bilhete: “1 muchela”. Espero nunca perder esta reliquia das recordaçoes de viagem.

E lá estava o abismo e o roçe das rodas do autocarro. Trinta centímetros de engano do condutor e salve-se quem puder. Se vamos morrer, pelo menos vemos como é, repeti a piadinha para um casal no autocarro. Até que funcionava. Com uns poucos. Algumas pessoas continuavam a suspirar a cada curva. Era como estar num avião, a indagar se seria esta a ultima viagem. E a pensar na estupidez dos acidente de viação, e no pavor de morrer assim. Durante esse percurso escrevi - vivo num mundo em que há leis que limitam a velocidade aos meios de transporte e ao mesmo tempo permitem a construção e a venda de ferraris.


Às vezes parávamos e o condutor fazia marcha-atrás, porque era impossivel dois veiculos cruzarem-se, não havia espaço suficiente. Para me alegrar e esquecer-me dos suspiros das curvas, lembrei-me do filme O Regresso ao Futuro em que o cientista dizia: “Roads? Where we are going we don't need roads!”
O autocarro deixava para trás uma nuvem de poeira e as pessoas que viviam sob aquele ar seco tentavam abrigar-se junto das margens secas do rio seco. É uma das vantagens de viajar de autocarro em vez de avião. Voando não vemos nada; no autocarro damo-nos conta de que há pessoas que vivem no meio do nada. E sorriem e dizem adeus.





Quando cheguei a Huancayo percebi que a cidade não esta habituada a turistas. Fiquei sem saber como me sentir, se como uma celebridade hollywoodesca ou como um freak circense. Os mais pequenos olhavam-me com olhares de estranheza, alguns homens riam-se e diziam aos amigos para olharem tambem e depois riam-se juntos, grupos de raparigas paravam de falar quando passava por elas e depois de ter passado podia ouvir as gargalhadas, ninguém sabia a diferença entre uma agência de viagem e um posto de turismo, o posto de turismo estava mesmo no meio de um desfile de camioes com pessoas a bater palmas e polícias a mostrar os uniformes, a praça principal da cidade está ao lado de uma estrada de duas vias em cada sentido e as pessoas comunicam por buzinas como nunca tinha visto em lugar algum. Aquele pi, piiiii, pi pii piiiiiiiiii, usado com diferentes ritmos e intervalos podia descodificar-se em:
Despacha-te
Sai da frente carajo
Taxi? Quer taxi? Taxi?
Oh boazona olha p’ra aqui
Cuidado que eu estou a chegar ao cruzamento
És mesmo boa
Taxi? Taxi? Taxi?
Sou eu, sou eu, agora sou eu
Eu tenho um carro estou possuído e gosto de fazer barulho


Às vezes o importante não é onde se vai, é como se lá chega.
E quando se parte para outras paragens.

Coisas da vida 8

Afixado na porta de uma casa-de-banho, Santa Cruz de la Sierra, Bolivia:
"El baño es solamente para número 1. Esta expresamente prohibido hacer el número 2, sin excepción."

Puca Picante


Delicia de Ayacucho.

Pikimachay: 20.000 anos depois

A gruta de Pikimachay tem 20.000 anos. Dizem uns. Outros falam em 15.000. Mais ano menos ano o que é certo é que o seu nome significa e bem a gruta das pulgas.

Desde Pikimachay avista-se como a passagem do tempo desde o primitivo transformou a paisagem. As montanhas estao feitas retalhos, com recortes de asfalto que encaminham o sopro mecânico dos automóveis como feridas abertas que parecem levar-nos sempre ao mesmo sítio. Um camião passa e anuncia promessas eleitorais no altifaltante. Às duas horas, vislumbram-se os telhados de zinco que protegem as ruínas da cidade pré-inca da civilizaçao Huari, quase soterradas pelos cactos invasores.
Ao longe, num anfiteatro natural, vê-se a estátua comemorativa da Batalha de Ayacucho de 1824, que libertou finalmente a america do sul dos espanhois (ou os espanhois da america do sul, como preferir).

Perto da vila de Huanta, um barbudo pintado de branco, de braços abertos, parece querer abraçar o ar para pedir perdão de estragar a paisagem natural.
Choramingam as ovelhas e zunem enchames inimaginaveis de gafanhotos.
Uma velhota passou rapidamente pelo silêncio comunicando com as cabras. Deve ter receio da grande pulga caucasiana, pois continuou indiferente o seu caminho pela secura da estepe. As pulgas sobreviveram a todos os gigantescos bichos cujas ossadas foram descobertas na gruta Pikimachay: mastodontes, megatérios, tigres dentes-de-sabre, homo sapiens. E quando o corpo daquela senhora se cansar de viver, as pulgas continuarão por aqui.