3.12.10

Pikimachay: 20.000 anos depois

A gruta de Pikimachay tem 20.000 anos. Dizem uns. Outros falam em 15.000. Mais ano menos ano o que é certo é que o seu nome significa e bem a gruta das pulgas.

Desde Pikimachay avista-se como a passagem do tempo desde o primitivo transformou a paisagem. As montanhas estao feitas retalhos, com recortes de asfalto que encaminham o sopro mecânico dos automóveis como feridas abertas que parecem levar-nos sempre ao mesmo sítio. Um camião passa e anuncia promessas eleitorais no altifaltante. Às duas horas, vislumbram-se os telhados de zinco que protegem as ruínas da cidade pré-inca da civilizaçao Huari, quase soterradas pelos cactos invasores.
Ao longe, num anfiteatro natural, vê-se a estátua comemorativa da Batalha de Ayacucho de 1824, que libertou finalmente a america do sul dos espanhois (ou os espanhois da america do sul, como preferir).

Perto da vila de Huanta, um barbudo pintado de branco, de braços abertos, parece querer abraçar o ar para pedir perdão de estragar a paisagem natural.
Choramingam as ovelhas e zunem enchames inimaginaveis de gafanhotos.
Uma velhota passou rapidamente pelo silêncio comunicando com as cabras. Deve ter receio da grande pulga caucasiana, pois continuou indiferente o seu caminho pela secura da estepe. As pulgas sobreviveram a todos os gigantescos bichos cujas ossadas foram descobertas na gruta Pikimachay: mastodontes, megatérios, tigres dentes-de-sabre, homo sapiens. E quando o corpo daquela senhora se cansar de viver, as pulgas continuarão por aqui.



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