Pessoas perguntam-me: quando é o teu voo de volta? Respondo: “Nao tenho”. Pessoas perguntam-me: quando regressas ao teu país? “Nao sei”. Pessoas perguntam-me: quanto tempo tens para viajar? Respondo: “Descobri que essa nao é a pergunta certa. Nao tenho tempo, tenho dinheiro. O tempo depende de como o gastar. Por isso uso o dinheiro com cuidado, para esticar o tempo”. A progenitora perguntou-me: mas que andas a fazer? “Estou a viver”, respondi. Nao lhe contei que um dia, sem dizer a ninguém, meti na cabeça que ia viajar durante um ano antes dos 30. Está a acontecer. Que ando a fazer? Estou apenas a ser fiel à minha vocaçao. A ter a coragem de ser livre.
E os amigos perguntam-me porque deixei de escrever. Vou sempre escrevinhado aqui e ali, da mesma maneira que uma criança se esquece de um brinquedo mal vê outro. Nao escrevo quanto devia por falta de atençao à desatençao e por ausencia da receita médica de Ritalina. Mas o maior problema é a abundancia dos estrogénios das Ritas e Linas deste mundo. O poeta diz que o sonho comanda a vida. Para mim nao é o sonho, é a mulher que comanda a vida.
II
De Portugal as novidades resumem-se sempre na palavra crise. As vozes pedagógicas tentaram chamar-me à razao: parece que haveria uma grande grande empresa que estaria interessada em mim. Daquelas empresas que te dao contratos vitalícios e subsídios para atirar ao Pai Natal. Uma ovelhinha nao pensaria duas vezes. Também só pensei uma vez. Nao me deixei sequer ponderar a proposta. Preferia morrer que viver moribundo, sem sonhos, contribuindo para o desequilibrio do mundo.
Havia um sonho por cumprir. Durante o estágio Inov-Art na Argentina reduzi as despesas ao máximo. Poupei dígitos suficientes para viajar um ano na américa do sul e ainda ter um fôlego ambulância no final da viagem. Como poderia voltar ao luso-ninho com tanto mapa por explorar? O déjà-vu é sempre um efeito airoso mas e a Bolívia? E o Paraguai e a Patagónia? E os sonhos de menino? Aos oito anos o atlas universal era a minha almofada.
Anoitecia o dia 24 de Dezembro de 2009 quando me sentei no primeiro autocarro. À minha espera, 36 horas de rabo quadrado. Passei o dia de Natal a rodoviar pela Patagónia. A ideia era passar o reveillón a tiritar de frio em Ushuaia para depois ir subindo sem pressas, sem avioes, sob planeamento logo-se-vê. Único objectivo, passar o fim-de-ano seguinte numa praia deserta no norte da Colômbia.
III
Porque é a única maneira genuina de viajar, obviamente vou sozinho. Desconstrua-se essa interpretacao equivocadissima: ser solitário nao é ser triste. Tenho sempre a minha companhia para me entreter.
Em duas pequenas mochilas juntei pouca roupa, equipamento de fotografía e vídeo e uns vinte quilos em livros. Optei por nao levar o portátil. Queria olhar o mundo. Logo me dei conta dos mochileiros estarem viciados nessa página azul e branca com fotografiazinhas felizes. De passarem grande parte do tempo nos hostels, sentados, colados ao ecra. Descobri depois que se nao usasse o facetruque deixaria de saber dos meus amigos – os verdadeiros. Tentei adaptar-me ao frenesim até que me cansei. Nao preciso de me nutrir de polegarzinhos no ar para ser feliz, o que preciso é de escrever. E nao para este blog. Estes escritos serao para mim aquela corridinha matinal antes de começar a trabalhar. Aqui, os textos nao estao entremeados pelas publicidades, que é para o que servem as revistas de viagem. E quase todas as outras.
Desapareço do mapa para aparecer na ponta da caneta. Quando escrevo, escrevo-me. Sem medo de ser desinteressante. “As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”: Fernando Pessoa. Leio para ler pessoas. Aborrecem-me as canetas sem personalidade, canetas mascaradas pelas técnicas e regras jornalísticas. Detecto-as a léguas, como os piratas. Às regras, o autoclismo. Aprendi a inverter os conselhos dos outros. Cansei-me de castradores hipócritas. Começo desde o princípio do ego, nú, fora-da-lei do “evitar do eu”, para me ir revestindo da pele e roupa das pessoas às quais sou transeunte.
Despair is the armchair é uma frase de Paul Theroux, o famoso escritor de viagens. O desespero é o sofá, porque o sofá pode ser o nosso primeiro caixao. Mas é a melodia de Despair is the armchair que me dá o sinal. Theroux escreveu que nao aprecia relatos de viagem que começam a meio. Está certo. (Mas começar onde se a minha viagem começou há 28 anos?) Iniciei um diário leviano ainda antes de deixar Buenos Aires. Mantive-o durante meses. Quando cheguei à fronteira do deserto do Chaco no norte do Paraguai, a estrada acabava. Era aí que começava a Bolívia. E o meu diário parou durante semanas. O volume da TV nos cafés tornou-se um rugido infernal, as luzes viraram luz de cozinha, as pessoas tornaram-se rádios ambulantes, o calor, o caos do trânsito… Nao. Foi mais o outro problema. Comanda.
O blogue comecará desde a minha estadia em Cusco, o lugar mais turístico da américa do sul. Durante o mês e pico que lá passei, vi muitas coisas que me remexeram a lava.
Quando segui marcha para o norte, decidi ir passando pelos lugares menos corrompidos pela indústria do turismo, onde tudo é mais difícil e menos aborrecido. Decidi que tinha de ir à província de Condorcanqui, uma área no norte do Peru que nao é mencionada nem está no mapa do Lonely Planet Peru Ediçao 2010, que pedi para consultar a um turista. Onde muito poucos lá vao, vou lá. Prefiro o perigo e nao o conheço.
A voz fermentou. Está no ponto a servir. Tenho p’ra dar um caldinho de três ingredientes: amor, furor e humor. Chegam. Confio na minha caneta preta.
Profícuo e muito Bom! Agora é aguardar por mais!
ReplyDeleteFica a enorme expectativa do que terá dito a caneta ao papel durante tanto tempo... começa a ditar ao teclado!
"Preferia morrer que viver moribundo, sem sonhos, contribuindo para o desequilibrio do mundo." :)
ReplyDeleteDe imediato!!
ReplyDeleteVim logo a correr ao teu blog. Que saudades de te ler. Volto a ter um link para mandar aos meus amigos com o assunto do mail a dizer " Este puto é que sabe".
Do fundo do coração, tu é que sabes. E que vaidoso fico.
Dá-nos mais neste blog, dá-nos tudo.
O convite para Floripa mantém-se.
Vamos falando.
Pedro ES
ciao pelegrino de america del sur,
ReplyDeleteaquel perre GRINO esta siempre dentro de ti, que bien!
buon viaggio e w cagliari!!
Quando um dia o (te) conheci senti que um "espírito" aberto se havia abeirado de mim, palavras após, partilhas a sós, sente se a essência... a pura, a dura, aquela que nos faz voar sem sair do chão (outras naufragar ainda que em terra) no entanto sabia que apesar do tempo e da distancia (certa) estarias por la, mas também por cá. Contigo partilho a ideia doce da viagem, a minha já algo maior que tua, hoje e sempre ate ao dia que termine a minha e continue a tua... como assim deve ser.
ReplyDeleteE de facto "ser solitário não é ser triste"
Agora estou perto (mais perto) ainda que longe.
Contigo viajo um pouco, bebendo aqui e ali sensações e emoções sempre através de teus conjuntos de letras organizados segundo um sentir tão próprio, por vezes embarco numa pequena viagem, outras sinto que e a viagem que me embala a mim...
Continua bem, como sei que estas, onde quer que estejas. Vai viajando pois e para mim um privilegio poder viajar contigo.
Abrazo
Pinho
lol, sempre te achei meio parvo, mas afinal, ate nem es mt..:p! tivesse eu esse desprendimento..:)
ReplyDeleteOlá Primaço!!!
ReplyDeleteFinalmente o enorme prazer de voltar a sentir as tuas experiências de vida, a tua evolução brilhante como ser humano, com uma mente e alma do tamanho do Mundo que tanto nos fascina. Sendo um autêntico milagre divino existirmos enquanto entidades vivas neste planeta minúsculo, deste imenso e infinito universo,temos que ter a coragem de, pelo menos, conhecê-lo de ponta a ponta!
Fico imensamente feliz por ti.
Abraço forte...faz um esforço por te lembrares de ir partilhando felicidade por todos nós.
Camilo
Esquivo-me das Palavras e concentro-me na imagem:
ReplyDelete- mas porquê o chapéu e as meias?
- estás a olhar para onde?
- onde deixaste o resto da roupa?
- que País tem um azul e branco tão linearmente definidos?
Uma viagem sem os pés assentes na terra deve ter um fascínio irresistível.
Prossegue o teu caminho e deixa-nos mirar através das tuas asas.
Aquele abraço
Boa saga e vai partilhando noticias!. Abraços!
ReplyDeleteAntonio@Tokyo
Um tão dilatado hiato entre a descoberta nipónica e o esventrar das montanhas incaicas é imperdoável.
ReplyDeleteÉ que a diegese em que laboras é diferente e imprevisível para quem, como eu, saboreia as imagens a que as tuas palavras me transportam.
E sabes, Tiago, " O Mundo que os Prtugueses Criaram " de Armando Aguiar ( 2ª ed. 1954 ) tem-me permitido viajar " ... na esteira da espuma deixada pelo bojo das naus quinhentistas ferindo os oceanos..." mas nele só há a poesia do mistério.
A tua poesia não resulta dos sons que se encontram, mas da beleza imagística que o silêncio das tuas palavras provoca.
Não sei mesmo se a tua máquina fotográfica conseguirá mostrar tanta beleza como aquela que a tua pena grava no papel. Eu , francamente, gosto.
Deixa-me agora dizer-te que 477 anos depois ( fá-los em 15 de novembro ), tal como Francisco Pizarro também tu transpões, vitorioso ( porque em liberdade total e consciente ) as portas de CUZCO, a capital do império inca (...)e irás visitar, presumo, Machu- Picchu - a mais famosa cidade pré-incada - exclusivamente dedicada, dizia-se, ao culto da Lua e só habitada por mulheres.
Continua a ser feliz.
Um abraço.