16.10.10

Cusco, Cuzco, Qusqo (pt. 1)

Cusco é uma cidade perfeita para caminhar, o que não deixa de ser irónico. Sais do hostel e queres é deixar-te perder pelas ruelas e vielas labirínticas, subir e descer escadinhas e ladeiras e andar em passeios de meio metro de largura. Mas estás a 3400 metros acima do nível do mar, dás uns passos numa lomba mais inclinada e pões-te a sonhar com botijas de oxigénio. E queres continuar. Escutas os teus próprios passos silenciosos e sentes-te um aldeão. Escolhes as ruas pedonais. Passas pela Hatun Rumiyoc e atravessas o normal alvoroço de guias e turistas à volta da pedra dos doze ângulos. Observas com atenção esse muro inca e o modo como os pedregulhos encaixam na perfeição. Não tens dúvidas: os incas foram os primeiros jogadores de tetris da história da humanidade. Só que depois chegaram os espanhóis e começou-lhes a piscar o game over. Os conquistadores destruíram os templos e palácios incas de Cusco e ergueram em cima dessas ruínas as igrejas e as casas com as varandinhas.

Ainda não andaste cinco minutos e começa o festival. "Massagem terapêutica, mister?" Respondes com a frase mais ouvida em Cusco: "No, gracias". O dia está só a começar. Sentas-te na escadaria da Igreja principal a observar pessoas na Praça de Armas. Desfrutas da fotossíntese. O brilho celeste impõe-se sobre o vale e recorta as montanhas. É Agosto, passam dias e dias sem que consigas ver uma nuvem. Um tipo aproxima-se a tentar vender-te óculos “Rei Bã”. Dizes "No gracias" e levantas-te. Passas pelo meio de mais uma manifestação, desta vez protestam contra a exportação de gás natural. Pouco depois, uma senhora abre um caderno cheio de pinturas e ilustrações. "Um recuerdo, jovem?" "No, gracias."




Vais tomar o pequeno almoço ao mercado San Pedro. Pedes um pão recheado com o que te vier a cabeça, inventas um sumo de maçã e maracujá. Estás a sugar da palhinha quando um miúdo se aproxima com uma caixa de rebuçados. Não diz uma palavra. Inclina a cabeça para o lado e olha-te nos olhos. "No, gracias. Mais tarde..."

Voltas às ruas, onde compras uma fatia de ananás para te acompanhar. Da porta de um restaurante um empregado mostra-te o menu: Pizza, mister? Começas a arrastar o “no” porque já se está a tornar penoso. "Noooooo, gracias." Uns metros mais à frente, outro vendedor de “Rei Bãs”. Finjes que nem o vês. Procuras um banco desocupado na Praça de Armas. Sentas-te. Levas com a imponência da praça à tua volta. Imaginas como terá sido a execução do rebelde indígena Tupac Amaru II. Primeiro mataram-lhe a família à sua frente. Depois cortaram-lhe a língua. Depois tentaram quarteja-lo mas não funcionou. Foi de guilhotina. Dás-te conta da carga histórica desta cidade. Percebes a razão por que apesar das dúvidas sobre a grafia mais correcta – Cusco, Cuzco ou Qusqo - os peruanos a tratam sempre por “El” Cusco. Imaginas os americanos a chamar a Nova Iorque “The” New York… Uma morena bonitinha distrai-te dos pensamentos: "massagem terapêutica, amigo?" Depois de tanta repetição, optas pela originalidade:

Quanto custa a massagem?

30 soles.

30 é caro. Dás-me 10 soles e eu faço-te a massagem.

Oh, amigo…

Tens muitos amigos, tu...

Segues o teu caminho, que está a anoitecer. Não escapas: "Senhor, um tour ao Machu Picchu amanhã?" Depois de teres visitado quase todas as ruínas do Vale Sagrado dos Incas e de teres estado no Machu Picchu sem recorrer a tours, inchas as bochechas e expiras com força. E depois respondes: "Machu Picchu? O que é isso?"

Mal o sol se esconde por detrás da colina de San Cristobal, antecipando o crepúsculo, a pergunta mais metafísica que te podes fazer é “Quem é que desligou o aquecedor?”. As noites em Cusco são gélidas, mas muito calientes. Todos as noites é febre de sábado à noite. Quando um grupo de gringos se aproxima da zona das discotecas, há sempre uns tipos que correm para eles desenfreadamente a oferecer-lhes papelinhos em que se pode ler as seguintes palavras mágicas: free drink. Não te apetece mas eles insistem. “Mas é gratis, mister…” Cusco é provavelmente o único lugar do mundo em que visitas ruínas incas de dia e à noite te arruínas. De dia vais a Moray, Tipón, Sacsayhuamán. De noite visitam-te pisco sour, cuba libre, mojito. Lá dentro, até algum reggaeton te faz mexer mais que a omnipresenca de one more time, tonight is gonna be a good night, waka waka, porque esto es africa! Aqui todos parecem dançar mais do que fariam nos seus países. Outrora capital do Império Inca, Cusco podia ser considerada agora a capital mundial da promiscuidade turística.

É mais do mesmo. Decides ir para casa descansar. Antes de sair ofereces os papeis de free drink a uns desconhecidos. Lá fora enquanto pões o cachecol à volta do pescoço és perseguido por uma miudita que abana pacotes de chicletes.

Chicle, amigo? Chicle? Um sol, um sol.

Nooooooooo, gracias.

Faz um estalido com a boca e dá meia volta, mas ainda a ouço dizer:

E cocaína, queres?

No, grac…

Páras. Vês a miúda a correr a fazer percussão com o pacote de chicletes, e a acerca-se de um grupo de turistas. Ela não tem nem doze anos.

A música continua a bombar das discotecas, são duas da manhã e a noite ainda é mesmo uma criança.

1 comment:

  1. também gosto de estar assim a fazer fotossíntese... ;)

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