Subia a encosta para o bairro de San Blas, quando as voltei a ver. Tinha notado a sua presença quase diária, ocupando sempre os mesmo degraus do passeio. Ambas vestiam trajes típicos dos Andes. Chapéu folclórico, casaco folclórico, saia folclórica. A filha estava sentada e acompanhada pelo seu camelídeo de estimação. A mãe tinha o usual pano atado ao peito a fazer de porta-bébés. A maneira como a criança dormia nas suas costas dava a sensação de conforto 1ª classe. Nos braços, a senhora carregava ainda um cordeiro que amamentava com um biberon. Era apenas mais um dia de trabalho.
Olhei para o camelídeo castanho que a filha segurava pela trela. Sabia distinguir as vicunhas, por serem mais pequenas e mais elegantes. Mas entre lamas e alpacas ainda não conhecia as diferenças físicas, apenas as gustativas. Antes de ter podido dizer alguma coisa, a miúda dirigiu-se a mim num sotaque perfeito: One photo my friend? Respondi-lhe em espanhol que não tinha trazido a câmara. Não se desiludiu. Olhar para ela era como apreciar um arco-íris antropomórfico. Mas o que me fixava o olhar eram os seus pómulos escurecidos, queimados pelo frio das madrugadas caminhadas até ao colégio.
Perguntei-lhe: É lama ou alpaca?
Alpaca. Chama-se Teresa.
Tentei fazer-lhe uma festa mas a Teresa desconfiou e afastou a cabeça. Conseguia ver-me reflectido na protuberância choramingona dos seus olhos.
Quantos meses tem?
Pouquitos.
Pouquitos?, perguntei sorrindo.
Sim, respondeu, sorrindo de volta.
E como se vê a diferença entre lama e alpaca?
O mais fácil é ver pelo focinho. O dos lamas é muito mais comprido. E as orelhas também.
Olha, e quanto cobras por uma foto?
Um sol. Mas há turistas que me dão notas de 10 soles.
De repente, gerou-se uma tensão no ar assim que a mãe atendeu o telemóvel. A filha evaporou a minha presença e olhava-a expectante. Durante a curta chamada apenas disse: “Ya… ya… ya!”, desligou, falou tão rápido para a filha que não percebi o que disse nem se falou espanhol ou quéchua, começaram as duas a correr sorridentes encosta acima dando um movimento de cores às paredes rochosas, como duas araras a esvoaçar entre as árvores. Não foi fácil acompanhar-lhes o ritmo. Juntaram-se a outra senhora que as estava esperando junto de um grupo de turistas. Pouco depois um deles pôs-se em posição de felicidade. A foto perfeita: o turista alto, loiro e fora de série, a mãe, a filha, o arco-íris, o bébé, a Teresa, o cordeiro e o biberon. Flash!
Foi tudo tão rápido que só mais tarde consegui tirar conclusões. Folclore. Ganhou para mim uma nova perspectiva. Folclore, saber do povo, a modernidade. Respeito. Respeito pela sensatez de disfarçar-se e usar o telemóvel como quem usa walkie-talkies para tirar bom proveito do nicho de mercado das recordações da Disneylândia.
Ao que parece esse saber folclórico já anda mesmo em todo o lado ;) todos giram a volta do mesmo: €€.
ReplyDeleteum abraço forte,
CES