6.12.10

O céu de Lima é cinzento para todos

E. despedia-se de mim com um Tchau! tao ríspido que era como se eu fosse um empregado seu que lhe tivesse acabado de lhe quebrar uma jarra valiosa. Convidou-me para ficar em sua casa em Lima nao sei muito bem porquê. Por simpatia. Ou porque podia. Apresentava-me aos amigos como o amigo de Portugal. Vegetariana, a sua dieta baseava-se em chocolates, bolachas com chocolate, batatas fritas, doces, caramelos de chocolate, café com duas três quatro colheres de açúcar amarelo e depois queixava-se que estava inchada. Tinha o comum almofadado de gordura à volta da cintura mas ainda assim os homens pasmavam-lhe as curvas e as mulheres os caracois.


Estava a abrir a porta da sua casa num dos bairros mais luxuosos de Lima, quando me disse “Tenho uma vida muito complicada, Tiago”. Dei-lhe uma estalada com o olhar. Com 19 anos tinha acabado de assinar a burocracia que dizia que ela era a proprietaria do apartamento T3. Com ela viviam dois primos, deprimidos. O primo gay, deprimido por excesso de trabalho, a prima por ter acabado uma relaçao amorosa. Ela tambem estava a faltar as aulas na universidade privada mas nao sabia bem porquê. Estavam os três a degustar uns churros gourmet num restaurante em que a gorjeta que deixavam daria para alimentar uma familia inteira, e a discutir quem é que tinha mais razoes para estar deprimido. E. disse: “A minha mae vem na quarta-feira dos EUA. (suspiro) Vou ser milionária outra vez.” Disse-o como se isso fosse fonte de aborrecimento. O tédio de nascer com miminhos de filigrana.


Vi mais casinos em quatro ou cinco quarteiroes do bairro limenho de Miraflores que todos os restantes que tinha visto na america do sul. Os empresarios da elegancia, sentados nas esplanadas, apreciavam o ritmo passageiro de sofisticados saltos altos que irrompiam o silêncio formal. O céu, cinzento como sempre. Lima é uma cidade onde quase chove nove meses por ano. A bruma é constante, nao tanto em Miraflores, onde as luzes, Pizza Hut, Burguer King, Starbucks, e todas essas iluminaçoes ofuscam o olhar como em qualquer outra cidade do mundo. Mas mesmo sob aquele salpilhar de cores a névoa densa dos céus nao escolhia ricos e pobres.


Fora do bairro de Miraflores, do outro lado da cidade, era outro país. O caos, a poluiçao sonora, suficientemente explosiva para chamar o otorrino. A miséria. Sentia-se nos olhares, no corropio de mercadorias carregadas às costas no bairro chinês. O lixo era comida perdida, que alimentava o asfalto sujo. O céu cinzento era escurecido pelos fumos saídos dos escapes dos automóveis parados no trânsito, nuvens fantasmagóricas que apareciam e desapareciam no ar. Havia tantos autocarros que era difícil saber qual ia de volta a Miraflores. Antes de ter tempo para perguntar a alguém, um rapaz vestido com os restos de uma t-shirt que já nao era branca, que ganhava uns trocos ajudando as pessoas a subir aos autocarros, começou a chamar-me, aos gritos, com uma urgência de salva-vidas, apontava para o autocarro, apontava para mim, apontava para o autocarro e gritava para mim em berros roucos “MIRAFLORES, MIRAFLORES! TU, TU, MIRAFLORES!” Adivinhou-me o destino. Continuou a gritar: “MIRAFLORES, AQUI! FLOWERS FLOWERS AQUI ENTRA ENTRA!”


Agradeci e entrei a rir-me no autocarro. A viagem no trânsito parado de hora de ponta demorou mais do que se fosse caminhando. O céu continuava nem claro nem escuro, apenas e mais uma vez imperialmente cinzento. Mas viajar do centro de Lima para o bairro de Miraflores foi como viajar do negro para o branco, da ausência de cor para a soma de todas as cores. E em nenhuma capital sul-americana tinha eu visto o negro tão negro e o branco tão branco.

2 comments:

  1. Sublime: " os homens pasmam-lhe as curvas e as mulheres os caracóis ".

    Ter-lhe-à doído ou terá sido carícia a estalada do teu olhar?

    Continua na guerrilha e vai-nos pincelando o percurso com negro e branco e todas as cores.
    Aquele abraço

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  2. Continuas a escrever com paixão e simplicidade. Gosto de te ler. Boa sorte nessa caminhada pelo mundo. Sayuri

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