21.10.10

Professora Lívia

"Olá senhora, uma água por favor.” A sede era menor que a vontade de saciar a curiosidade sobre aquele chapéu. Só o tinha visto em algumas senhoras nos mercados de Cusco, dando-lhes um ar de divas andinas. Um estilo quase urbano, muito trendy.

Mandou-me entrar e escolher a água que queria. Não se moveu do lugar. Sentada nas escadas de entrada à sua lojinha de conveniência, tinha a seus pés a cidade cusquenha.


Fiz o que tinha a fazer: "Senhora, como chama a esse chapéu? "
“Sombrero” de mestiça.
"Hmmm… E a cor do laço tem algum código?"
"Não. Mas só nós as mestiças é que usamos."
"Gosto muito. Vi-o em algumas senhoras no mercado…"
"Sim, muita gente usa."
"Sim… Mas as raparigas novas não…"
"Oh, não querem… As raparigas agora nem saia usam! A minha mãe sempre dizia que só quem é profissional, quem tem estudos, é que pode usar calças. Agora todas querem usar calças, tenham estudado ou não!"

Deixei-me ficar por ali a beber a água, devagarinho. A calma do entardecer foi interrompida de surpresa por um cão que ia atrás de outro cão que ia atrás de outro cão que ia atrás de outro cão, descendo a correr a escadaria poeirenta com as línguas de fora. Não percebi se era brincadeira ou se o caso seria um osso duro de roer. Veio à mente a imagem de homens a fazer o mesmo naquelas escadas. À velocidade máxima, não haveria um que não se estatelasse.
A senhora comentou: "
É sempre a mesma coisa… Se pudesse, punha veneno a esses cães todos. Por aí vadios…"

Convidou-me a sentar. Perguntou:
"E o seu chapéu?"
"Boliviano."
"Vende-mo?"
"Como??"
"Quanto pagou por ele?"
"Hmmm, não sei quanto será em soles… Foi barato. Na Bolívia, sabe como é…
"
"Dou-lhe 60 soles."
"Senhora, não o quero vender", respondi embaraçado. "
Podíamos fazer uma troca... Mas não a quero ver sem esse chapéu, fica-lhe bem! "
Ah, “me enamoré de ese sombrero”.


Não pude deixar de ver o gracioso da situação. Ora aqui estava uma paixão recíproca de se lhe tirar o chapéu.

"Ima sutiki?", perguntei.
"Lívia." Do que falou a seguir só entendi a palabra quechua…
"Estou a aprender. É difícil."
"Ensino-te. Que queres saber? "


E foi assim.
Que começaram as lições de quechua dos fins de tarde.
Mais do que necessidade, sinto-o sempre como uma obrigacão aprender o mais possível do idioma ou dialecto local. É divertido e é um acto de magia. Em Cusco, bastava-me dizer “Alalau!” para um encantamento psicolinguístico acontecer. O sorriso, a surpresa, a confiança. “Sim, está muito frio”.

"Professora, pajarin kama!"
"Até amanhã!"
No final das curtas “lições”, sempre lhe estendia a mão para me despedir. Dava-me o pulso. Nunca a mão. Só quando lhe entreguei a fotografia que lhe tinha prometido, na última vez que a vi, que a Professora Lívia tomou a iniciativa e estendeu a mão para o cumprimento. Senti na sua palma as asperezas das memórias andinas.

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