26.11.10

"Viajar assim é viagem" - Turismo de guerrilla

Turistas são os outros. É o que sinto quando vejo a massificação de experiências subjugada à industrialização das viagens. Sinto uma tristeza agressiva de ser apenas mais um explorador de um mundo contaminado pela exploração excessiva.

Deste sentimento nasceu a ideia de "turismo de guerrilha", conceito que, especulo, deverá ser invenção própria. Nasce da paixão pela aventura da autonomia e da crença no ditado “Em roma sê romano – excepto se fores o papa”. Nasce do coração do viajante que nasceu tarde, quando os tentáculos da indústria do turismo já cobriam os mapas e o mundo ja não necessitava de corações com máquinas fotográficas.



Manifesto do Turismo de Guerrilha


O turista da guerrilha evita sempre que possível contribuir para a indústria do turismo. Essa é a sua missão.

O turista de guerrilha é anti-agências de viagem.

As agências de viagem estão para o turismo como as igrejas estão para as religiões. São dispensáveis. Existem pela fraqueza de espírito de quem não suporta viver dentro do seu próprio altar. Os agentes de turismo são sanguessugas que quando te criam problemas tu não os podes resolver. As agências de viagem gostam de criar-te problemas.

O turista de guerrilha vê mapas, não vê brochuras.

Os packages holidays são inimigos. O turista de guerrilha não faz o Sudeste Asiatico, não faz o Chile nem o Brasil. Foi ao Chile e ao Brasil. Vai ao Sudeste Asiatico. Ir é o verbo mais importante.

O turista de guerrilha é anti-tours.

O turista de guerrilha é autónomo e procura a experiência da autenticidade. Os tours são inimigos. O turista de guerrilha deixa de o ser se ouvir a frase “agora tem quinze minutos para a fotografia”.

Um guia ensina-te o que vem nos livros e outras mentiras. O guia não trabalha para ti, trabalha para a agência, e faz com que tu não trabalhes para ti mesmo. O guia, ao pastorear-te, ao mastigar-te a papinha, torna-se uma influência perniciosa sobre a tua incursão na douta ciência da desenmerdagem.

O turista de guerrilha prefere ser o único no meio de um grupo de pessoas do país que está a visitar do que fazer parte de um grupo de turistas a tirar fotos a uma velhinha a tecer.

Para o turista de guerrilha, um grupo de turistas em excursão são os parasitas da sociedade.

O turista de guerrilha não aceita preços em dólares quando está num país cuja moeda não é o dólar.

O turista de guerrilha é anti-city sightseeing.

O turista de guerrilha não dá voltas a cidades em autocarros sem tecto para “ficar com uma ideia”.

O turista de guerrilha caminha. Tem um espírito jovem.

Quando o turista de guerrilha tiver artroses e não puder caminhar não dá voltas a cidades em autocarros sem tecto para “ficar com uma ideia”; senta-se num café ou num banco de jardim e faz perguntas às pessoas que ali vivem.

O turista de guerrilha não viaja para “ficar com uma ideia”.

Quando o turista de guerrilha quiser “ficar com uma ideia”, fica em casa a ver um filme sobre esse destino.

O turista de guerrilha prefere alimentar o plâncton que engordar os tubarões.

O turista de guerrilha practica turismo sustentável.

O turista de guerrilha entra em lugares turísticos sem pagar bilhete. Turismo irresponsável são os copos de plástico de café atirados desde a janela da carruagem de 1a clase do comboio para o Machu Picchu.

Para o turista de guerrilha o mundo é uma ervilha.

Uma ervilha podre que todos anseiam por trincar. O turista de guerrilha ama a podridão da ervilha.


O turista de guerrilha não tem ilusões: aceita a sua própria condição de turista.

O turista de guerrilha é turista de si próprio.

5 comments:

  1. grande tiagao espero q esteja tudo bem ctg men!!! abraco e nao ao sofa!!!
    ass. zezito

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  2. há vários anos que subscrevo este manifesto e recomendo :)

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  3. ....que murro no estômago!!!

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  4. Grandioso manifesto anti-turismo, mas discutível como tudo o que é grandioso.
    Há quem diga que os turistas de guerrilha só existem porque os turistas-turistas é que mantêm os monumentos e proporcionam condições de acesso.
    Fascinante seria ter a certeza de qual a razão que terá levado antepassados longínquos a erguerem a sua genialidade, sempre à custa do suor e do sangue daqueles que não se divertiam na sua expressão monumental.
    Fiquei, apesar de tudo, com uma dúvida: o turista de guerrilha visita países ou anda apenas em redor de si?
    Aquele abraço

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  5. Ola niño

    Muito oportuno o teu post quando acabo de chegar duma viagem a outro continente.Com escalas várias, aviões que não levantam por intemperies ou por ausencia de pilotos, enfim viagem de turista sem qualquer hipotese de guerrilha.
    É que nestas viagens de turistas "turista"o cliente vai para onde o mandam e "mai nada"!!!

    E a surpresa foi quando alguem desesperado, num aeroporto a transbordar de turistas, desabafa em voz alta : aqui sou tratado que nem gado!!!


    E isto é não ser turista de guerrilha!

    mui bien

    Isabel

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