18.11.10

Lizeth Lázaro e outras lições de paciência



Estimada leitora, vamos fazer uma experiência. Convido-a a ler o texto seguinte acompanhado com a música do vídeo em cima. Faça play no vídeo e continue a leitura. (O melhor poderá guardar para o fim – o videoclip).

Agora, tem é de pôr o volume no máximo. Só assim terá uma ideia do que é uma viagem num autocarro provincial peruano.

A hora de partida é a seguinte: quando estiver cheio. Ainda estão a entrar as últimas pessoas quando finalmente as rodas começam a mover-se. Primeira paragem: bomba de gasolina. O álbum de Lizeth Lázaro embala: “Me contaron de ti que te olvidas tu de mi amor”. Aquela voz perfura os tímpanos como estilhaços de porcelana. Tarefas impossíveis: ler, dormir. Mas é regra de viagem: nada de proteccão com ipod’s, se é para estar no Perú, tambêm têm de estar os ouvidos. Berram dois bébés. O choro do apocalipse. Pouco depois, dois imprescíndiveis mamilos conseguem calá-los. Nunca vi tantos bébés como na américa do sul, por isso também nunca vi tantos mamilos (o que também deve ser considerado como lição de paciência).

O condutor acelera nas curvas andinas e faz paragens bruscas e sacos de plástico são distribuidos pelos passageiros. Três curvas depois a senhora do lado vomita com pontaria. A seguir o autocarro pára sem razão aparente. O momento é aproveitado por vendedores. A invasão é rompante. “Humita! Hay humita! Choclo! Chooooclo! Mandarinas! Mandariiiiiiinas!” As melodias que usam são de um domínio sonoplasta de assinalar. Não ha espaço para respirar no corredor. E não vendem paracetamol.

A Lizeth Lázaro mistura-se: “Tu vida ya no me interesa!” Mas nem ela nem as vendedoras conseguem acordar o gordo que dorme de boca aberta a bater o record do guiness do roncar mais barulhento da história do universo. É de acordar extra-terrestres. “Chooooclo! Mandarinas!” Nada. “Que me importa a mi que ya tienes cuatro o cinco amantes.” Nada. Só quando as vendedoras saíram e o autocarro recomeçou a marcha é que acordou meio desorientado. “Onde estamos?”, perguntou. Alguém respondeu. “Onde? Onde?” Gritaram a resposta novamente. A sua cara mudou logo de feição, pegou no telemóvel e novo record do guiness: o da quantidade de decibéis transmitidos via telefone. “AMIGO, JÁ É TARDE, COMBINAMOS AMANHA SIM? QUÊ? AHAHAHAHAHAH! HIHIHIHIHI! COMPRASTE WHISKY? AHAHAHAHA!”

O melhor é respirar fundo, porque se há coisa que dá vontade de começar aos tiros são as pessoas que gritam para falar ao telemóvel. Os que estão à volta do gordo devem estar a pensar se não seria melhor que este voltasse ao ressonar de rinoceronte. Quando terminou a chamada, vibrou a garganta para juntar saliva desde o esófago, afastou as pernas uma da outra, inclinou-se para a frente e espetou uma escarreta esverdeada no chão do autocarro.

Páram a música e a Lizeth já não se ouve. Um senhor de fato e gravata, de pé no corredor, diz: “Estimado público…” Olha, pronto. “Graças a deus que estamos quase a chegar.” Não por favor, outro vez não. “Sei que tiveram um dia cansativo mas permitam-me apenas uns minutos do seu tempo.” Não pode ser, outro vendedor de doenças! “Alguém sabe qual é o maior orgão do corpo humano? Ninguém sabe? É a pele. E sabem que temos muitas doenças de pele por falta de cuidados diários? Vejam estas imagens.”

Estes tipos pagam aos condutores para que os deixem entrar a intrujar os passageiros. “Este produto na farmácia está a dez mas estou a vender em promoção. Cinco soles, nada mais.” Com uma elegância de uma cassete repetida enganou uns quantos assustados pelas fotos de micoses.

O homem calou-se e voltaram a pôr a Lizeth no volume máximo. Que saudades.

Pelo vidro embaciado discorrem as montanhas nevadas dos andes, a delícia imagética da pastorícia, com crianças em trajes típicos pontapeando cabras, uma senhora descalça que grita às ovelhas, lamas impassíveis à passagem do autocarro. Depois de ouvir o álbum duas vezes seguidas, o aluno do curso intensivo de paciência descobre que a melhor forma de suportar a sua voz é aprender a gostar. O folclore local é a melodia da viagem, é a melhor música para digerir a paisagem. Lizeth Lázaro, la cariñosita del escenario! Ya esta cerca de ti, ya esta conquistando tu corazón!”

PS: Não deixem de apreciar a originalidade do videoclip.

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