15.11.10

Machu Picchu by night: o experimento sado-maso inca

Levantei-me ao segundo toque do despertador. 3:35 da manhã. Aprontei-me em cinco minutos. Perguntei ao Philippe se também ia, mas manteve a decisão do dia anterior: ia mais tarde, não era preciso entrar em loucuras. Encontrei-me com o grupo de chilenas no seu hostel. Caminhámos na escuridão, seguindo o som das aguas do Urubamba. Quando chegámos à ponte que da acesso ao Machu Picchu, percebi que não estava a cometer nenhuma loucura. A nossa frente, em fila, uma centena de vultos brincava com as lanternas e misturava idiomas. Todos madrugaram não so pelo o Machu Picchu (montanha velha), mas tambem pela montanha jovem – o Huayna Picchu. So os primeiros 400 visitantes de cada dia têm direito a subir à silhueta de fundo do Machu Picchu, a elevação que lhe a dá misteriosa elegancia.

Esperavamos as 4:30 para iniciar a escalada. Uma das chilenas disse “o melhor é encontrarmo-nos la em cima, cada um ao seu ritmo”. Concordei silenciosamente com um sorriso interior. Quando abriram o portão os primeiros atravessaram a ponte a correr. Assim que alcancei as escadas, o unico que conseguia ver eram pernas, botas, luzes de lanternas, movendo-se rápidamente como uma maratona de ratazanas subindo do esgoto para o talho.
As ingremes escadas faziam com que muitos parassem quando o caminho se cruzava com a estrada que serpenteia a montanha, para respirar, para descansar, para tossir. Sabia que a subida demorava mais ou menos uma hora. Decidi avancar o mais rápido possivel no inicio para fugir ao transito que ia se dispersando atras. Em algumas partes desligava a lanterna para não ver os degraus que me esperavam. Empurrava com as mãos o joelho de apoio para ajudar a subir. Depois os gemeos comecaram a esticar e o ar… onde estava o ar? Cada degrau era uma seta perfurada nos pulmões.
“Falta muito? “
Sim!”, respondeu uma senhora peruana que subia a minha frente. Por algum tempo aproveitei para seguir o seu ritmo. Não vi mais ninguem. A nossa frente certamente haveria uma competição para chegar em primeiro. Seria um carimbo orgulhoso, ser o visitante numero um.

Parava para respirar. “Falta muito?”
“Sim!”
…’da-se! Eram loucos estes incas, que sádicos de merda!” Disse de forma cortês, comparado com outras eloquências que ia vociferando numa tentativa vã de que me saisse o cansaco pela boca. Sentia-me uma cobaia num teste incaico a propria resistencia. Dizia para mim mesmo que viessem os degraus que viessem, os subiria todos até bater com a cabeca no céu. Por algum motivo os espanhois nunca encontraram este lugar remotamente escondido entre montanhas pontiagudas como dentes incisivos da terra.

Quando cheguei a entrada ainda era de noite e corpos estendidos no chão tossiam. A fila ia crescendo e a agua ressuscitava. Vieram carimbar-me o bilhete. 38°. Pediram-me para optar entre subir o Huayna Picchu as 7h ou as 10h. Escolhi ir mais cedo para evitar o calor e o transito nos dois sentidos. O Coque, o único rapaz do grupo chileno, veio ter comigo perguntar-me se “Não queres juntar-te às chicas na fila?”
“Ir la para tras?”
“Sim, para nos juntarmos todos.”
“Não pa, acho que me fico por aqui, vemo-nos la dentro. “
Enquanto esperava, uma das ideias que me invadiu a mente foi a de criar no facebook o grupo “eu subi as escadas para o Machu Picchu no dia 31 de Julho de 2010”, mas no instante seguinte ignorei aquela ideia estupida. Entretanto, os primeiros autocarros chegavam e despejavam os batoteiros. Lentamente o dia ganhava cor. Ja estava na fila dos torniquetes quando apareceu a Viviana.
“Tiago, nós estamos a comer, não queres vir?”
“Comer? Agora?”
“Sim, umas sandwishes de palta e tomate deliciosas ali no restaurante.”
“Não, obrigado. Vou comer o Machu Picchu.”
Não havia apetite para outra coisa. Tinha uma intenção interior, impartilhavel, de enfrentar a sós a minha insignificancia com a imponência da paisagem. Queria evitar a multidão a manchar o horizonte e evitar o burburinho dos cromos das fotos de grupo. Precisava de escutar o silêncio do lugar.

As 6h abriu-se o sesámo. Nunca vou perceber o que fiz para ter conseguido estar completamente sozinho. Talvez os que entraram antes tenham subido um pouco mais alto, o certo é que foi surpreendentemente facil ter o que queria. De repente as pedras sonhadas tornaram-se reais, as montanhas ambiciosas furavam as nuvens, as andorinhas cantavam num carrossel alucinado, um cão veio cheirar-me a companhia e os dois guardas que falavam baixinho ao longe transpuseram toda a incógnita humana naquela construção. Foram quinze minutos de uma solidão completa, quase lacrimejante, que valeram todas as chicotadas cardiacas da madrugada.

Em breve o Machu Picchu terá mais tempo de vida como atracção turistica que como residência incaica. Em 2011 faz cem anos que o mundo moderno soube da existência da cidade sagrada e ainda não se sabe ao certo para que efeito foi construida. As diversas teorias sao contadas aos turistas como fabulas recambolescas. É mais lógico pensar que o imperio inca preveu o futuro e construiu o Machu Picchu para o oferecer à industria do turismo. Uma estrada ja foi levantada para os autocarros e brevemente haverá um teleférico, e esplanadas nos terraços rochosos, e um centro de conferencias funcionará no Templo do Sol e condomínios com piscina vão ser vendidos a uma comunidade ultra-moderna de reformados que chegarão a casa aterrando numa pista de helicóptero.


Do topo do Huayna Picchu, a percepção ainda estava a habituar-se ao ângulo desconhecido sobre as ruinas. O maralhal dos tours espalhava-se pelas ruinas incas como térmitas coloridas a apodrecer uma árvore indefesa. Olhando-os pensei: esta gente não quer imaginar o que perde.Tinha ainda todos os degraus para descer e mais três horas de caminhada pela linha ferrea até à central hidroeléctrica para um transporte de volta a Cusco por Santa Teresa. O deus sol ja mandava na manhã quando descansando sobre o cume panorâmico do Huayna Picchu sonhei com o eco de uma palavra enviada para dentro da alma: consegui.

4 comments:

  1. BRAVOOOOOO!!!

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  2. Uf!....Vou buscar uma máscara de oxigénio!...

    Aquele abraço

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  3. Tiago!, no sabia que tenias un blog
    que entretenido leer lo que escribiste!
    espero que estés muy bien
    nos vemos!

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