Há quem o seja a part-time, por hobbie ou apenas nas férias, mas existem no Perú aqueles que são profissionais no ofício de viver à custa do dinheiro do turista. São os bricheros, que vêem o turista como uma ponte para um país estrangeiro, daí a etimologia da palavra: bridge. O fenómeno do bricherismo é facilmente vísivel nas ruas de Cusco e Lima. A jovem, loura, europeia, americana, levada de mão dada ao engano pelo encanto do latin lover, que lhe adoça os ouvidos com tudo o que ela quer ouvir: shamanismo, misticismo, galanteios. Muitas vezes resulta numa relação de amor, o “amor de mi visa” (visa em espanhol significa visto). O cifrão está sempre abrumado no meio da relação. O turista é uma árvore e o brichero é o leopardo que a trepa e descansa nos seus ramos.
Esta é a minha experiência com o bricherismo, por coincidência com duas raparigas e um rapaz oriundos de Lima:
Fui à hospedagem onde vivia a Laura, que encontrava todas as noites na discoteca, nas suas largas férias etílicas em Cusco. Toquei à porta do seu minúsculo quarto sem janelas.
“Quem é?”
“Caillou”.
“Caillou! Entra.” A Laura e as suas amigas chamavam-me Caillou, porque a minha calva as lembrava de um desenho animado que viam na infância. Era mais uma alcunha para a lista. Ao entrar, senti que estava a caminhar para dentro de um alambique.
“Ouve lá, mas tu não consegues viver sem álcool?”.
“Não”, respondeu com a risada de sempre. Eram onze da manha e ela ainda estava a molhar com rum os seus lábios afro-peruanos.
“Vim aqui pedir-te desculpa por ontem à noite ter-te chamado brichera de merda.”
Deu uma gargalhada.
“Porque tu não és de merda.”
Outra gargalhada, seguida de “Ah, e achas que sou brichera?”
“Não sei, Lau. Não sei mesmo. Mas ontem já estava com os copos e não gostei que me estivesses a pedir que te pagasse os mojitos quando tu sabes que eu sei que tens o teu dinheiro.”
Aprendi logo na primeira noite que a conheci, quando fomos à única loja aberta buscar uma garrafa de rum. Quem é que pagou o táxi e a garrafa, quem foi? Isso mesmo. E a Laura e a amiga tinham notas de 100 soles no bolso? Tinham. E disseram que tinham? Obviamente caladinhas. Para algumas interpretacoes esta situacao inclui-se no amplo e complexo conceito de bricherismo. No meu caso, nao acredito que a Laura fosse brichera.
“Não tenhas cuidado não, atraente como és, a caminhar sozinha de madrugada, de mini-saia, e bêbada...” Deu uma gargalhada e bebeu mais um gole de rum, como uma criança que sabe que está a fazer algo errado.
“Sabes que lá fora está sol? Vais ficar aqui outra vez a beber e ver televisão?
“Já não vejo o sol há uma semana”, disse a rir-se.
Sentia por ela compaixão. Quando começava a chorar e a emborcar ao mesmo tempo, o pai e o ex namorado vinham à baila. Um dia confessou-me que tinha um filho. No dia em que me fui despedir, estavam dois tipos a beber com ela dentro do quarto. Rejeitei entrar. Saiu, a tresandar álcool pela manha. A última coisa que lhe disse foi “Respeita-te”. “Caillou, não vás!”, foi o último que a ouvi dizer da porta da hospedagem.
Com o Julio, a história é outra.
Descrição do homem: pele escura, ascendência árabe, sopinha de massa, pegajoso de primeira, em Cusco a tentar a sua sorte. Desde o primeiro dia que me viu que párava a cumprimentar-me como se fôssemos velhos amigos. Contava-me onde era a festa nessa noite e tentava pôr-se a reboque. Quando me encontrava na discoteca, as vezes pagava-me alguma coisa para não dar demasiado nas vistas. Via um estrangeiro e lá ia ele: “Amigo!” Mas sempre vinha o choradinho, que não tem plata para comer, que não tem plata para comer. Com um descaramento despreocupado, andava sempre, sempre, sempre à caça de “gringas”, com o que se referia ao mesmo tempo às estrangeiras e às louras.
Uma noite em que nos cruzámos na rua, o Julio estava a conversa com um tal de Hernan, um moreno sedutor de longos cabelos negros. Fiquei por uns minutos à escuta. Aqui deixo um resumo do que ouvi:
H: E a italiana que saquei ontem da discoteca? A saltar em cima de mim como uma louca em plena Praça de Armas!
J: Quê? E não havia policía?
H: Não, mas apareceram uns bêbados e estragaram tudo. Ela estava doida!
J: E a tua outra fêmea?
H: Qual?
J: A loura americana.
H: Ah, vem amanha. Mal posso esperar. Que fêmea tão boa.
J: É gorda…
H: É um bocado. Mas tem dinheiro. E em Novembro vou me casar com a espanhola e vou viver para Valência, ahahah!
J: Eheheh!
A Luna usava os seus sensuais atributos para pulverizar de pólen os colibris forasteiros. Ao som de tambores abanava o ventre de forma apetitosa. O grupo dos seus amigos, artesãos de rua, hippies seguidores da rota turística, que vivem de forma tribal partilhando por seis o chão do mesmo quarto sem mobília, estavam sempre a tentar “casar-nos” e comigo essa propaganda não funciona. Achava-a bonita mas simplesmente não estava interessado. Além disso apreciam-se as mulheres independentes.
“Já provaste mazamorra morada?“, perguntou-me.
“Não”.
“Temos de provar.”
Temos: plural. Mas o singular é que paga.
Encontrei-me com o grupo deles por azar na noite que era a sua festa de despedida – ia voltar a Lima-, e todos disseram que eu tinha que ir, que tinha que ir. Sentados num bar reggae bem aborrecido, a Luna disse: “Estou cheia de sede. Quem é que me pode oferecer uma cerveja?” Um silêncio na mesa esperava que me chegásse à frente.
“É a minha despedida…”
Cheguei-me à frente.
Enquanto o grupo dançava em círculo, a Luna veio perguntar-me ao ouvido:
“Tens marijuana?”
“Um pouco.”
“Deixas-me enrolar um?”
Dei-lhe o saquinho que tinha no bolso e fui à rua apanhar ar. Quando voltei a Luna já estava a dançar sensual como sempre.
“E?”, perguntei.
“E o quê?”
“Já enrolaste?”
“Sim e já fumámos.”
“Ok, dá-me o que sobrou.”
“Ah, deitei o resto no lixo da casa de banho.”
“Quê? Porquê no lixo? Em que casa de banho? Vou lá ver.”
“Ah, não… já não havia nada.”
Fechei os olhos por um instante, baixei a cabeça, peguei no casaco e saí. A Luna veio atrás de mim: “Qué pasa, qué pasa?” Disse-lhe que o que passava é que lhe tinha dado erva suficiente para haver de sobra, que me estava a dizer que tinha posto o resto no lixo mas depois afinal já não havia nada, e que não confiava mais nela e por essa razão me ia embora.
Vinha atrás de mim, com carinha de beicinho, pedir-me que ficasse. Continuei o meu caminho em paz comigo mesmo. Segui a intuicão de notar-lhe a mentira em sequência e eliminei-a logo da minha vista. Nessa mesma noite decidi deixar a erva. Poucos dias depois, voltei a escrever.
Anyway, esta é a minha experiência com o bricherismo, felizmente branda. Se eu fosse loura e tivesse olhos azuis provavelmente teria reunido material suficiente para escrever um livro.
...não me parece que alguem que escreve assim ,precise de ser loira e ter olhos azuis ...
ReplyDeletebricheras e bricheros no mi gusta niño
besos
Isabel