O sinal dizia: “Proibido circular pela via férrea.” Era aí que comecávamos a caminhada.
Numa das primeiras noites dançadas em Cusco, um grupo de chilenas contou-nos que havia uma maneira de contornar os dólares pagos na viagem de comboio ate à localidade mais próxima do Machu Picchu. Philippe ouviu com atenção e disse: “Entao basta chegar de autocarro até Chilca e depois só temos de caminhar os 30 quilometros pela linha férrea?” Responderam que sim. Philippe olhou para mim e exclamou: “Let’s do it!”. Nem precisei de dizer nada. Era possível chegar a Águas Calientes por oito soles. Dois euros! Que importava que tínhamos de caminhar todo o dia pela linha de comboio se isso significava reduzir sem piedade os custos de visita à Meca? Fiz as contas. Duas noites, tres dias, 220 soles (menos de 60 euros). E com o bilhete incluído. Visitar a Meca do turismo seria afinal uma pechincha divertida e venturosa.
Nao era preciso bussola nem mapa. Havia apenas que seguir a linha de comboio que acompanha o rio Urubamba. Na margem oposta, vimos portadores e cozinheiros a preparar-se para enfrentar as montanhas. É na povoação de Chilca, tambem conhecida por Km. 82, que comeca o famoso Caminho Inca. Mas nao tinhamos disposição para gastar 450 dolares com meses de antecedencia para percorrer o trilho mais comercializado da america do sul. O nosso caminho inca era outro. 
Caminhavamos ha umas horas pela linha ferrea quando Philippe sugeriu que “deviamos vamos fazer uma paragem para comer daqui a cinco quilometros.” Centenas de metros a frente, deparamo-nos inesperadamente com o complexo arqueologico Torontoy. Sugeri sentar-nos sobre as pedras milenares para almocar. La aceitou mudar os planos. Pouco depois disse com a boca cheia de pao com pate e tomate: “Nao te tinha dito que este pate era optimo?”.
Philippe trabalhava como guia num resort de ski quando decidiu deixar o Canada para viajar por seis meses. A casualidade dos caminhos cruzou-nos por tres vezes na Bolivia. A terceira foi de vez: decidimos atravessar a fronteira no mesmo autocarro. A verdade é que ele tinha mais vantagens em viajar comigo do que o contrario. Falava espanhol como um bebe de tres anos e a sua presenca francocanadiense dificultava-me a negociação de precos em hostels e viagens de autocarro. Mas ele era uma divertida e boa companhia. Seguia a caracteristica filosofia norte-americana de “life is good”, safava-se no espanhol de uma maneira comica, com gestos, interjeições e onomatopeias. Do seu orgulho patriotico descobria-se um brio intelectual. Gostava de planear e decidir. Em muitas coisas era o oposto de mim: Philippe era organizado, cauteloso, correcto e teorico; e preferia as louras. Eramos tao diferentes que nos tornamos compativeis companheiros de viagem. Nasceu uma amizade como a que existe entre um cão e um gato.
Caminhámos, caminhámos, caminhámos. Trespassámos tuneis. Desfilámos pelo desfiladeiro. O rio Urubamba, sereno, ignoravamo-nos. A vegetação cada vez mais verde, o calor cada vez mais humido, nesta area geografica conhecida por sobrancelha de selva. Quente. Pluviosa. As montanhas, secas, rochosas, verdejantes, glaciais, nenhuma foi obstaculo às pegadas incas.
Neste isolamento viviam familias para quem o relogio era a passagem dos comboios. Afastávamo-nos da linha ferrea para deixar passar os turistas abarrotados. A maioria ia a dormir. Alguns viam-nos e faziam caras de espanto. Quanto valor iria naquelas carruagens? A tarifa mais barata do comboio para Aguas Calientes é de uns 100 dolares ida e volta. Sentados no conforto, sentiriam quão remoto é o lugar?
Tentávamos não desanimar com as pedras instáveis da ferrovia. Procurávamos encontrar pequenos trilhos locais que atravessavam habitações perdidas no tempo. Não nos habituávamos a caminhar como a gente local. Eram como miragens. Como se o “i” do posto de informação estivesse caminhando ao nosso encontro. Velhotes, tombados sobre a carga nas costas, saltitavam as tábuas da linha ferrea, que lhes dava um ritmo frenetico de andamento. Passavam por nos na direcção contraria. E não paravam para nos responder.
“Quanto mais tempo de caminho para Aguas calientes?”, perguntei.
“Duas horitas.”
Pelos nossos calculos, ao nosso ritmo, seria impossivel chegarmos em duas horas. Para entreter a viagem, Philippe posava para a foto a pedir boleia aos comboios. Para esquecer o cansaco, eu usava a imaginação observando a vegetação. Perguntei ao Philippe se conseguia ver aquele gorila gigante. Depois, se conseguia ver o alien. Aquelas representações rebuscadas no cenario tornavam-se testemunhas de um sacrificio. Era uma penitencia, a mesma de quem adia um orgasmo.
Era ja certo que não iriamos ver a nossa meta, o sinal “Km. 112”, antes do anoitecer. Passámos por um grupo de chilenos, dois rapazes, seis raparigas. Duas das mais bonitas estavam a ter ataques de arrependimento. O perigo da escuridão não era o comboio. Era o abismo mortifero a nossa esquerda, e as pontes de tábuas que eram pouco mais que silhuetas sombrias. A melhor lanterna era a minha. Liderava o caminho com a luz de um nokia baratucho. Constelações pirilampicas encorajaram-nos a encarar o breu. Chegámos a Aguas Calientes estafados, esfomeados, mal-humorados. Fomos directamente comprar os bilhetes para a visita a Meca no dia seguinte. A minha frente na fila uma senhora de uma agencia demorava-se a comprar 30 bilhetes, contava lentamente o maço de notas, conferia vagarosamente as fotocopias dos passaportes. Ao ver aquelas fotografias que pareciam de prisioneiros, senti uma aversão faminta por aqueles encarcerados do aconchego.
Encontrámos o grupo de chilenos com quem tinhamos partilhado uns quilometros, que nos disse que estava num hostel por 25 soles. Dirigimo-nos para lá, disse a senhora que queriamos um quarto, que estávamos tambem com esse grupo. Mas assim que o Philippe falou ingles, a senhora olhou-nos e disse: “Ah, voçes não estão com eles.” Dissemos que sim, que tinhamos chegado juntos. Ja sabia onde ela queria chegar. Disse: “O minimo que vos posso fazer é 35 soles.” Na maioria dos lugares turisticos no Peru, há preço para sul americanos e preço para “gringo”. Esperámos intermináveis minutos por um desconto. Quando recuperámos forcas suficientes para nos levantarmos e tentar encontrar outro hotel, a senhora baixou para 30 soles. Não gostei da maneira que nos estava a tratar e quis sair, mas o Philippe convenceu-me a ficar já ali. Traduzi uma passagem do blog dele, referindo-se a Aguas Calientes: “mais parecia uma cidade a expandir-se fora de controle, com construções de cimento alastrando em todos as direcções (...) Um dos problemas com lugares turisticos isolados é que pode (compreensivelmente) tornar os trabalhadores locais um pouco frios para com os turistas. Estes lugares atraem os turistas mais ignorantes, que estão de passagem e não criam grande relação com os locais nem falam espanhol e simplesmente querem visitar a atracção turistica. Isto combinado com o isolamento pode causar que os trabalhadores locais te tratem como mercadoria e tenham uma imagem negativa sobre estrangeiros.“
Estava no quarto a contar as peripecias à Gabriela, uma das chilenas que nos sugeriu o plano aventura e que tinha chegado no dia anterior, quando o Philippe entrou a dizer: “Não vão acreditar, a mulher quer cobrar-me para me emprestar uma toalha!” Disse-lhe que aquele demonio hitleriano tinha-me pedido para não por as mochilas em cima da cama para não sujar os lençois. “Lençois! É isso! Vou usar um dos lençois para me secar”. Tirou o lençol da cama e saiu a rir-se. Ficámos no quarto a partilhar um cigarro relaxante. Pouco depois a hitler entra no quarto de rompante, encosta-se a parede do fundo e diz apontando para a porta: “Voçes vão ter de sair ja!” Olhei para o cigarro verde entre os dedos de Gabi. Quê? Ia ser a primeira vez na america do sul que alguem se ia queixar por um quarto privado cheirar bem? Qual era o grande problema? Ela tinha ainda o braço imperioso no ar quando o Philippe entrou no quarto, caminhando devagar, segurando os lençois nos bracos. “Mucho desculpe, mucho desculpe”, disse com uma expressão de culpa, misericordia e embaraço. Começou a falar em ingles, eu traduzia. Ela perguntou-nos porque ele não tinha usado a camisa que tinha vestida para se secar. Ele implorava para que não nos expulsassem do hotel. Era uma das cena mais tragicomicas que tinha assistido. Gabi olhava-me com vontade de rir, mas não houve risos ate que a negociação terminou. Podiamos ficar, mas o Philippe tinha de deixar 20 soles de caução e a hitler iria fiscalizar o quarto antes de ele sair na manha seguinte. Quando foi a minha vez de ir tmar banho, ela estava no corredor, armada em Gestapo. Mostrei-lhe a minha toalha a rir-me e ela nem um sorriso. Para me vingar das dores, do cansaço e dos hitlers deste mundo, deixei-me estar uma boa meia hora debaixo das "aguas calientes".
Todas as fotos de Philippe Benoit.
No seu blog, tem textos em ingles sobre a sua viagem na america do sul. Os dois textos sobre o peru aludem ao tempo que viajamos juntos.
Blog: http://www.travelpod.com/travel-blog/pbenoit/1/tpod.html





Conheço Machu Pichu apenas de imagens e de relatos.
ReplyDeleteNunca consegui perceber porque o Homem se constrói em alturas tamanhas.
Da tua crónica,fico-me com a convicção de que os primitivos teriam tido acesso por carreiros que ainda ninguém replicou.
Provavelmente, terás andado por lá perto!..
Agora, estou curioso de saber como fizeste marcha-atrás?!...
Aquele abraço
Porque é que nunca me passaria nem passará pela cabeça visitar estes sítios da mesma forma que tu?
ReplyDeletePorque não tenho tlm com lanterna!!