Dentro mim inquietou-se uma hormona. Que me disse:”Ouve lá pá, tu faz alguma coisa!” Mandei-a calar e quando saí passei pela sua fonte de perturbação, que estava a colocar na bandeja um trio de caipirinhas. Disse-lhe “Chau guapa” e saí. A hormona chamou-me tenrinho e amuou.
Dias depois voltei ao café e ouvi a sua história. Laura era o nome. Definiu-se como mochileira com um orgulho feliz, como se fosse a missionária da sua própria vida. Tinha deixado há sete meses o seu país, a Colômbia – que, segundo a hormona, fazia sentido.
Viajava para viver. Mas a modalidade de viagem era diferente da maioria dos que devoram os mapas a longo prazo. Chega a um lugar, consegue trabalho, junta uns trocos para o próximo destino e quando lá chega volta a fazer o mesmo. Chegou a Cusco com vinte anos no mundo e menos de quinze euros no bolso. A Laura carrega às costas uma bravura que não se pode ensinar, a de viajar sem a munição do dinheiro. Ao pensar na facilidade de andar com um cartão de crédito de uma conta poupança, senti vergonha.
A sua ideia é dar a volta à “suramérica” e voltar para Bogotá, sem antes deixar de viver o seu sonho de aprender tango em Buenos Aires. E uma noite, a última noite em que nos vimos, tive o privilégio de a ver dançar.
Fomos ver a final de um concurso de salsa. A Laura ficou desapontada. Disse que no Perú dançam a salsa de maneira demasiado coreográfica, que é só voltas e contravoltas e piruetas e rodopios fora de tempo. Que nem deixam a coisa ferver. Disse-lhe que aprendi os passos básicos de salsa: “Frente, meio, trás, meio…“e ela interrompeu-me: “Eu não sei os passos, só sigo o ritmo.” A Laura é daquelas pessoas que aprendeu a bailar na placenta.
Quando começámos a dançar, salsa, reggaeton, o que fosse, disse-me: “Pode pôr a mão, estamos só a dançar… Agarre-me, não tenha problemas.” Disse-lhe que não tivesse problemas, que me podia tratar por tu. Respondeu: “A única pessoa que trato por tu é a minha mãe.”
O corpo seguia o ritmo da música, a música seguia o corpo do ritmo, o ritmo seguia a música do corpo. O epicentro de um sismo. As luzes, as pessoas à volta, tinham desaparecido. Quando saímos e respirámos novamente a altitude cusquenha, a hormona segredou-me: “Ouve lá, nós é que percebemos de endocrinologia, por isso aprende: nós, as hormonas, ficamos muito mais felizes com uma dança bem bem dançadinha que com um coito desencaixado, faço-me entender?”
Acompanhei a Laura a sua casa, que partilhava com um peruano que se apaixonou por ela. Caminhando no silêncio empedrado do morro de San Blas, lembrei-me de que me tinha dito que saía sempre tarde do trabalho e perguntei-lhe se não tinha medo de andar sózinha por aquelas ruas frias, vazias e, segundo rumores, perigosas.
Abriu a pequena bolsa que tinha ao ombro e tirou um objecto de madeira que com um toque do seu dedo se transformou instantaneamente numa arma letal. “Acho que se mostrar isto... O meu pai deu-me quando fiz dezoito anos.” Olhava pensativa para a navalha, como se visse para além da lâmina afiada. E disse com um sorriso: “Foi a única prenda que o meu pai me deu.”
***

Ao responder ao meu pedido para usar uma foto sua, a Laura escreveu: “Ahora estoy en San Pedro de Atacama, estoy trabajando y creo que me voy a quedar un tiempo aqui. (…) Y bueno! Ahi voy dibujando caminos en el mapa de mi vida!...”
gostei muito muito
ReplyDelete"...uma bravura que não se pode ensinar, a de viajar sem a munição do dinheiro"
ReplyDelete- sempre pensei que o refúgio na aldeia durante as férias da minha juventude se devia exclusivamente à falta de munições.
Percebi finalmente - e agradeço-te, e à Laura, por isso - que era apenas ausência de bravura.
Aquele abraço