A consciência queria que resolvesse o assunto para evitar insónias. Era dia de eleições no Perú, dia em que os que precisam de estar ébrios para viver estavam obrigados a estar sóbrios para votar. Nas ruas em volta do mercado de Cajamarca, enquanto senhoras com o típico chapéu cajamarquino vendiam queijos com sabor a serra portuguesa, um velhote emborcava a lei seca pelo gargalo da garrafa da água ardente da alma.
Sabia que a esquadra era perto do famoso “quarto do resgate”, onde se reconstituí a prisão do último inca Atahualpa. Este pediu que lhe poupassem a vida se enchesse um quarto de ouro “até onde lhe chegasse a mão”. Mas assim que o ouro lhe chegou à mão, os espanhóis chegaram-lhe ao pescoço. A morte de Atahualpa foi o fim do império inca. Estava ainda no início deste episódio e quando perguntava onde era a polícia a face das pessoas reagia com uma curiosidade televisiva.
Dois guardas à entrada da esquadra. Uma “señorita” e um gorducho ao telemóvel. Perguntei à policinha: “Para apresentar uma queixa, com quem devo falar?” “Sobre quê?” Disse-lhe que queria falar apenas uma vez. Estava a dar-me conta da sua beleza fardada quando ouvi “É comigo, é comigo que fala, siga-me”. O gorducho afinal era o Comandante Carranza. Acompanhei-o ao seu escritório, perante os olhares curiosos dos oficiais à conversa no átrio. Sentámo-nos nos sofás. Reparei nos dois posters pendurados na parede com imagens de surfistas. Passei-lhe o meu passaporte. Folheou-o várias vezes com atenção. “Japão?”, perguntou. Contei-lhe.
“Conhece um William Cabrera?”, perguntei.
“William?…”
“Cabrera.”
“Cabrera. Não, não conheço. Porquê?”
Disse-lhe que não estava ali para lhe pedir nada, simplesmente para tranquilizar a consciência com o que lhe ia contar...
Fui à internet numa das esquinas da praça de armas dar umas skypadas dominicais com os amigos do mundo. As crianças que substituíam a dona do ponto internet deliravam com o bob esponja na televisão. Os computadores abanavam com as correrias. O volume animado sobrepunha-se às histórias da Juliana na Índia. Saí. Dei uma volta à procura de outra internet. Os lugares que estavam abertos tinham todos os computadores ocupados de humanos.
Voltei ao mesmo local. Já tinham enxugado o bob esponja. Troquei de computador. Quando pus o cursor na barra de pesquisa google, apareceu a lista automática com as pesquisas recentes e vi que alguém tinha acabado de fazer uma pesquisa que me indignou. Chamei a dona do local internet. Não ficou surpreendida com o que leu. “Há muita gente assim. E os piores são os mais bem vestidos.”
O Comandante Carranza estava cada vez mais intrigado com o que ouvia. Expliquei-lhe da maneira mais simples que pude que encontrei através do historial do browser que a pessoa que fez essa pesquisa revoltante foi a mesma que usou uma conta do site hi5 para ver os perfis e fotografias de raparigas menores de idade.
“Que mais informação conseguiu?”
Começou a escrever numa folha a ocorrência: William Cabrera; 34 anos; nascido a 22/2; no dia 3 de outubro, antes das 17h da tarde, pesquisou no google “sexo com a minha filha enquanto dorme”. Pensativo, disse: “Pela pesquisa que ele fez já está a pensar em alguma coisa… Cabrera não é um apelido comum, e pode ser que se consiga a morada com os dados que me deu. O que fazemos nestas situações é enviar os dados para Lima e eles têm lá um departamento específico para estes casos. É o que posso fazer”.
Era o que se podia fazer. Talvez seja apenas um nome fictício, não exista ninguém com esse nome e não haja maneira de encontrar quem fez essa pesquisa e saber como trata a sua filha.
“Tenho um amigo que também faz essas coisas da fotografia. Voçê gosta de surf? Foi ele que me ofereceu estes posters.” O comandante Carranza agradeceu-me mas fiz que questão de agradecer por cima. Atirei para ele a batata quente da sesta da alma. Podia partir de Cajamarca no dia seguinte com a consciência mais leve que a mochila.
PARABÉNS!! Olhar pelo próximo é um dever de todos respeitado por alguns!
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